Quando o Brasil vota em Portugal: 134 mil eleitores, três cidades e uma diáspora que já pesa
POR TIAGO HÉLCIAS

Mais de 134 mil brasileiros podem votar em Portugal em 4 de outubro. Veja os colégios eleitorais de Lisboa, Porto e Faro e como o eleitorado votou em 2022.
Quem esteve numa seção eleitoral brasileira em Portugal em 2022 não esquece. Filas que davam a volta no quarteirão, gente de camisa amarela e de camisa vermelha dividindo a mesma calçada, o sotaque de todos os estados do Brasil misturado ao sol de outubro em Lisboa. Foi ali, num domingo, que ficou claro que a comunidade brasileira em Portugal já não era um detalhe da política brasileira. Quatro anos depois, ela voltou maior. E os números do TSE mostram o quanto.
Quantos brasileiros podem votar em Portugal em 2026
Segundo o cadastro do Tribunal Superior Eleitoral, são 134.374 brasileiros aptos a votar em Portugal em 4 de outubro. No mundo, há 918.876 eleitores com domicílio eleitoral no exterior, distribuídos por 134 países. Só os Estados Unidos, com cerca de 265 mil, têm mais do que nós. Portugal fica em segundo, à frente de Japão, Canadá e Alemanha.
Para quem vive aqui, o número diz algo que a rua já sabia. Em 2022, pouco mais de 80 mil brasileiros foram chamados às urnas em Portugal. Agora são mais de 134 mil, um salto de mais de 60% em quatro anos. A imigração brasileira mudou de escala, e a escala mudou o peso político.
Um lembrete que vale repetir: quem vive fora só vota para presidente e vice. Não há governador, senador nem deputado na urna. É uma eleição de um único voto, o que a torna também uma das mais simbólicas.
Lisboa, Porto e Faro: onde a diáspora vota
A votação acontece em três cidades, das 8h às 17h, no horário de Portugal.
Lisboa é o maior colégio eleitoral brasileiro do planeta fora do país. Segundo a Justiça Eleitoral, são 78.833 eleitores distribuídos por 207 seções, em três prédios da Universidade de Lisboa: a Reitoria, a Faculdade de Letras e a Faculdade de Direito. Em 2022, eram 45.273 eleitores na capital. O crescimento foi de cerca de 74%. A cidade que já era o maior colégio do mundo ficou ainda maior.
Porto aparece logo atrás, com cerca de 48 mil eleitores e 60 seções, todas no Instituto Superior de Engenharia do Porto, o ISEP, como em 2022. Essa jurisdição cobre o Norte inteiro. É o eleitor de Braga, de Guimarães, de Viana do Castelo, de Bragança, que faz a viagem até o Porto para cumprir o dever cívico. Quem vive aqui no Minho conhece bem esse caminho.
Faro atende o Algarve e o Alentejo, com pouco mais de 9 mil eleitores e 21 seções. A votação é no prédio do consulado. É o menor dos três colégios e, como veremos, o mais imprevisível.
O que Portugal disse em 2022
Se a eleição brasileira dependesse apenas dos eleitores em Portugal, Lula teria sido reeleito com folga. Os números finais do TSE não deixam dúvida.
No primeiro turno de 2022, Lula somou 21.839 votos, 60,39% dos válidos, contra 11.218 de Bolsonaro, 31,02%. Ciro Gomes ficou com 4,31% e Simone Tebet com 2,81%. A chamada terceira via desapareceu, e a polarização que dividia o Brasil dividiu também a diáspora.
No segundo turno, a distância cresceu. Lula terminou com 23.256 votos (64,00%), Bolsonaro com 13.081 (36,00%), em 36.337 votos válidos. Uma vantagem de mais de 10 mil votos. No Brasil, a diferença foi de pouco mais de um ponto percentual. Em Portugal, foram 28 pontos.
Três cidades, três comportamentos
A média esconde histórias diferentes.
No Porto, Lula teve sua votação mais expressiva: 9.450 votos, 64,8%, contra 5.134 de Bolsonaro. No primeiro turno, ele estava em 59%. Entre uma votação e outra, o candidato cresceu quase seis pontos.
Em Lisboa, o resultado foi quase idêntico: 12.872 votos, 64,5%, contra 7.085 de Bolsonaro. Perfis de imigração diferentes, o mesmo desfecho.
Em Faro, onde a direita portuguesa é soberana, a história é outra. Lula venceu, mas por 52% a 48%. Foi o melhor desempenho de Bolsonaro em solo português. O Algarve e o Alentejo têm eleitorado pequeno, mas de comportamento próprio, e vale observar se essa fronteira se mantém em 2026.
O silêncio das urnas: a abstenção
Há um dado que quase ninguém comenta, e um jornalista não pode deixá-lo de lado. Em 2022, o segundo turno teve 36.337 votos válidos em Portugal, num universo de mais de 80 mil eleitores. Em Lisboa, foram 19.957 votos válidos para 45.273 aptos. Menos da metade do eleitorado inscrito escolheu um candidato.
Não dá para afirmar que uma participação maior favoreceria este ou aquele lado. Dá para dizer que a diáspora vota menos do que poderia. Com um eleitorado 60% maior, uma participação parecida colocaria mais de 60 mil votos válidos na conta. O voto é obrigatório dos 18 aos 70 anos, mesmo no exterior, e quem não puder comparecer deve justificar a ausência pelo e-Título ou pelos meios da Justiça Eleitoral. Só que a fiscalização é frouxa, e o hábito da ausência resiste.
Antes de domingo: o essencial para votar
O Jornal DN Brasil registou que apenas 28% dos eleitores inscritos em Portugal baixaram o e-Título. É pouco. Além de valer como documento, o aplicativo mostra a sua seção. Em Lisboa, com mais de 200 seções, saber onde votar antes de sair de casa evita filas erradas e horas perdidas.
Sobre o documento, o cônsul-geral em Lisboa, Alessandro Candeas, confirmou que será aceito, em caráter excepcional, um documento oficial português com foto, como o cartão de cidadão ou a autorização de residência, na ausência do documento brasileiro. A regra foi anunciada para Lisboa. Quem vota no Porto ou em Faro deve confirmar com o seu consulado.
O que está em jogo
Cento e trinta e quatro mil votos não decidem uma eleição com 158 milhões de eleitores. Mas dizem quem somos: uma comunidade em rápido crescimento, com opinião firme e história recente de votar em bloco. Em 2022, ela deu uma resposta clara. Em 2026, a pergunta é outra: quantos vão aparecer para dar a resposta?
Domingo, 4 de outubro, das 8h às 17h. Baixe o e-Título e vá votar.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia, do calor das ruas aos bastidores da política.
Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais.
É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
Siga nas redes para continuar a conversa
Comentários