“FUI ARRANCADO DA MINHA PRÓPRIA TERRA”, DIZ OFICIAL DE JUSTIÇA APÓS ANOS VIVENDO SOB AMEAÇAS NO CONJUNTO SANTA AMÉLIA, EM MACEIÓ

POR TIAGO HÉLCIAS | EXCLUSIVO


Por anos, a chácara localizada no Conjunto Santa Amélia, na parte alta de Maceió, representou tranquilidade, refúgio familiar e estabilidade para o oficial de Justiça Robert Wagner Medeiros Cavalcanti Manso. Hoje, segundo ele, o local carrega marcas de medo, abandono e violência.

Documentos obtidos pelo blog revelam detalhes de investigações conduzidas pela Delegacia de Repressão ao Narcotráfico (DRN) e de um processo criminal que tramita na Justiça de Alagoas envolvendo denúncias de ameaças, atuação de grupo criminoso e tentativa de homicídio. O caso está vinculado ao processo nº 0727673-97.2017.8.02.0001, referente a fatos investigados inicialmente em 2017.  

Em entrevista exclusiva ao blog, Robert Manso relatou os impactos pessoais, financeiros e psicológicos que afirma ter sofrido após passar a conviver com episódios constantes de intimidação na região onde morava.

“Você passa uma vida inteira construindo patrimônio, criando vínculos, investindo na sua propriedade. De repente, percebe que não pode mais viver ali. Não por escolha, mas por medo. É uma sensação de expulsão silenciosa”, afirmou.

“O bairro passou a viver sob uma espécie de liberdade vigiada”

Moradores ouvidos pelo blog relatam que o Conjunto Santa Amélia convive há anos com uma rotina marcada pelo medo e pela presença ostensiva de grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas.

Segundo relatos de moradores, muitas famílias passaram a viver sob uma espécie de “liberdade vigiada”, onde circulação, conversas, movimentações e até relações pessoais passaram a ser observadas por integrantes da criminalidade local.

“O sentimento é de que o Estado perdeu espaço dentro da comunidade durante muitos anos. Quem mora ali sabe exatamente até onde pode ir, o que pode falar e com quem pode conversar”, relatou um morador que pediu anonimato por medo de represálias.

A rotina marcada pelo medo

Segundo os documentos analisados pelo blog, testemunhas relataram à Polícia Civil que grupos ligados ao tráfico de drogas atuariam nas proximidades da propriedade do oficial de Justiça. Um dos depoimentos menciona inclusive uma suposta tentativa de latrocínio ocorrida dentro da chácara.  

Robert afirma que, com o passar do tempo, a rotina da família mudou completamente.

“Você começa a mudar hábitos simples. Horário para chegar em casa, circulação de veículos, visitas. Tudo vira motivo de atenção. O medo deixa de ser um episódio e passa a fazer parte da rotina”, relatou.

Ele conta que a situação teria se agravado após operações policiais e movimentações de investigação na região. Segundo o oficial, a presença frequente de forças de segurança teria provocado reações e desconfianças por parte de pessoas ligadas ao crime organizado local.

Recomendação para abandonar a propriedade partiu da cúpula da Segurança Pública

Segundo Robert Manso, a decisão de deixar a propriedade não aconteceu por vontade própria, mas após orientações recebidas de autoridades ligadas à Segurança Pública de Alagoas à época dos fatos.

De acordo com o oficial de Justiça, diante do avanço das ameaças e do risco iminente, a recomendação para deixar a chácara teria partido do então secretário de Segurança Pública de Alagoas, coronel Lima Júnior.

“Chega um momento em que você entende que permanecer ali poderia colocar vidas em risco. Não era mais apenas sobre patrimônio. Era sobre sobrevivência.”

“Perdi o direito de viver na minha propriedade”

Um dos pontos mais sensíveis do relato envolve o afastamento definitivo da propriedade onde viveu durante anos.

“Na prática, perdi o direito de morar no que era meu. Você trabalha a vida inteira e depois percebe que o ambiente ao redor foi tomado pelo medo. Não havia mais segurança para permanecer ali com minha família.”

O oficial de Justiça afirma que o impacto financeiro também foi severo. Segundo ele, além do abandono parcial da área, houve desvalorização da propriedade e prejuízos decorrentes da impossibilidade de utilização plena do espaço.

“Não é apenas uma perda material. Existe desgaste emocional, psicológico e familiar. Você vive em alerta constante.”

O que dizem os documentos

O blog teve acesso a um termo de depoimento prestado em 2018 à Delegacia de Repressão ao Narcotráfico. No documento, uma testemunha afirma ter recebido ameaças após manter contato com um funcionário ligado à chácara do oficial de Justiça.  

O relato menciona ainda a suposta atuação de integrantes de uma organização criminosa na região, incluindo tráfico de drogas, circulação de armas e intimidações contra moradores.

Outro documento obtido pelo blog mostra uma intimação expedida pela 7ª Vara Criminal da Capital referente ao mesmo processo judicial ligado a uma ação penal por tentativa de homicídio qualificado. No processo, Robert Wagner Medeiros Cavalcanti Manso aparece como vítima e foi intimado para audiência no Tribunal do Júri de Maceió.  

Violência silenciosa e sensação de abandono

Especialistas em segurança pública ouvidos pelo blog avaliam que casos semelhantes têm se tornado mais frequentes em áreas urbanas onde o avanço de organizações criminosas provoca deslocamentos silenciosos de moradores.

Sem necessariamente haver expulsão formal, famílias acabam abandonando imóveis por receio de represálias, ameaças ou perda da sensação mínima de segurança.

Para Robert, o sentimento ainda é de injustiça.

“É duro perceber que, muitas vezes, o cidadão correto precisa recuar enquanto o crime avança territorialmente. Isso deixa marcas profundas.”

Processo segue na Justiça

O caso segue vinculado ao Judiciário alagoano. Até o momento, não há decisão definitiva transitada em julgado relacionada às acusações citadas nos documentos analisados pelo blog.

A matéria respeita o princípio constitucional da presunção de inocência, garantindo a todos os mencionados o direito à ampla defesa e ao contraditório.

O espaço permanece aberto para posicionamentos das defesas dos citados, da Polícia Civil de Alagoas, da Secretaria de Segurança Pública e do Tribunal de Justiça de Alagoas.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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