EM ALAGOAS, GOVERNADOR DÁ PIX COM PRÉ-CANDIDATO NO PALANQUE E ASSESSORIA JURA QUE NÃO TEM NADA A VER

POR TIAGO HÉLCIAS ​


Existe uma cena que se repete no Brasil desde antes de qualquer um de nós ter memória política. Um político no palanque, microfone na mão, multidão na frente, sorriso largo e dinheiro circulando. A roupa muda. O discurso se atualiza. A ferramenta evolui com a tecnologia. Mas a essência permanece intacta, resistente a qualquer reforma, imune a qualquer constrangimento.

O governador, o senador e o Pix de R$ 200

No último domingo, Dia das Mães, o governador de Alagoas Paulo Dantas (MDB) subiu num palco em Rio Largo, cidade da região metropolitana de Maceió, e anunciou ao microfone o que definiu como um “presente”. Foram sorteadas 50 transferências via Pix de R$ 200 cada, totalizando R$ 10 mil. “Vocês vão ganhar, também, um presente do senador Renan e do governador Paulo Dantas. Quem gosta de Pix aí, levanta a mão”, disse ele ao público presente. 

No palco, Dantas estava acompanhado pelo próprio senador Renan Calheiros, pré-candidato à reeleição, pelo prefeito Pedro Carlos (PP) e pelo vice-prefeito Peterson Henrique (PP).  Um quarteto de poder reunido num evento do Dia das Mães numa cidade do interior de Alagoas, distribuindo dinheiro via aplicativo. Mas, segundo o governo, tudo isso é estritamente pessoal. Particular. Sentimental, quase.


A nota da assessoria e o esforço hercúleo de acreditar

A assessoria de comunicação do governo tratou logo de explicar: a ação teve “caráter informal e privado” e os pagamentos foram feitos com recursos pessoais, sem qualquer utilização de recursos públicos, servidores ou estrutura vinculada ao Tesouro Estadual. “O governador Paulo Dantas exerceu um direito individual, utilizando recursos próprios, dentro dos limites estabelecidos pela legislação vigente”, informou a secretaria.

Perfeito. Vamos aceitar a premissa. Vamos fazer o esforço hercúleo de acreditar que um governador em exercício, no palanque de um evento organizado pela prefeitura aliada, ao lado de um senador pré-candidato à reeleição, num ano eleitoral, agiu movido puramente pelo amor às mães de Rio Largo.

Mas aí surge uma dúvida inocente, quase infantil: por que anunciar em voz alta que o “presente” é “do senador Renan e do governador Paulo Dantas”? Presente pessoal não precisa de crédito institucional. Presente pessoal não exige microfone. Presente pessoal não acontece no meio de um evento público com 170 prêmios distribuídos, incluindo eletrodomésticos e uma moto, evento organizado, diga-se, pela prefeitura de um aliado político.

O que diz a lei eleitoral e o que ela não precisa dizer

Não cabe a este jornalista decretar o que é ou não é crime. Para isso existem instituições. Mas é legítimo e necessário apresentar o que a legislação estabelece.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, a captação ilícita de sufrágio ocorre quando o candidato doa, oferece, promete ou entrega para o eleitor qualquer bem ou vantagem pessoal de qualquer natureza, com a finalidade de obter-lhe o voto. E a corte é explícita: não é necessário o pedido explícito de votos.

Eu não quero acreditar que alguém com acesso aos melhores advogados eleitorais do Brasil cometeria a imprudência de configurar algo assim. Paulo Dantas não é candidato, tecnicamente, portanto, não há candidato no ato. O Pix é pessoal. O sorriso é materno. A coincidência é apenas isso.

A caravana do dia anterior e a geografia da coincidência

Só que no dia anterior ao sorteio, Renan Filho, pré-candidato ao governo pelo MDB e apoiado por Dantas, esteve em Rio Largo dando início à sua caravana eleitoral “Pra Fazer História de Novo”, gritando em coro com apoiadores: “Rio Largo é Renan Filho”.

No dia seguinte, o governador e o senador distribuem Pix no mesmo município. Deve ser muita coincidência mesmo.

Renan Calheiros não divulgou o sorteio em suas redes sociais e não se manifestou publicamente sobre o caso.  Curioso silêncio de quem distribuiu um presente tão generoso.

O Pix moderno, o envelope antigo e o Brasil de sempre

Eu venho do jornalismo alagoano. Conheço aquela terra, aquela cultura política, aquele jeito de exercer o poder que atravessa gerações e sobrevive a tudo. O que muda é o instrumento: antes era o caminhão de bacalhau, a cesta básica na véspera, o vale-compra em envelope pardo. Hoje é o Pix, instantâneo, digital, moderno na forma. Mas, segundo os críticos, idêntico no espírito.

O que impressiona não é o ato em si. É a tranquilidade. É a nota redigida em linguagem jurídica sofisticada para dizer, no fundo, que tudo é absolutamente normal. É a naturalidade com que se distribui dinheiro a eleitores de uma cidade onde o candidato apoiado pelo governador esteve fazendo campanha 24 horas antes.

A pergunta que fica para os órgãos de controle

A pergunta que faço, com todo o respeito às autoridades competentes, é simples: alguém vai olhar para isso?

O Ministério Público Eleitoral existe para isso. O Tribunal Regional Eleitoral de Alagoas existe para isso. O TSE existe para isso. São instituições com instrumentos, atribuições e autoridade para examinar os fatos, confrontar com a legislação e concluir o que um simples blog jamais poderia.

Porque se não olharem, a mensagem que fica é que o Pix substituiu o envelope, o palanque substituiu a traseira do caminhão, e a nota da assessoria substituiu o silêncio envergonhado de antigamente. Mas a lógica, essa, continua sendo a mesma de sempre.

Em outubro, haverá eleições em Alagoas. Em maio, houve um sorteio de Pix. Entre os dois fatos, segundo o governo, não há absolutamente nenhuma relação.

Eu, francamente, prefiro acreditar nisso. A alternativa é muito mais incômoda.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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