VEREADORES DE ARACAJU DESCOBRIRAM O EMPREGO PERFEITO: FALTA-SE MUITO, RECEBE-SE TUDO

POR TIAGO HÉLCIAS 


Cresci profissionalmente em Aracaju acreditando que o jornalismo servia para iluminar o que o poder prefere manter na sombra. Paguei caro por essa crença. Perdi empregos, fiz inimigos, aprendi na pele o que significa enfrentar quem manda. Mas nunca me arrependi. E quando vejo o trabalho que Ana Paula Rocha e Wendal Carmo fizeram no Mangue Jornalismo, publicado em 13 de abril de 2026, entendo por que ainda vale a pena.

A reportagem é cirúrgica. Simples na metodologia, devastadora no resultado: cruzamento entre frequência parlamentar e contracheques dos 26 vereadores de Aracaju ao longo de 2025 e nos dois primeiros meses de 2026. O que encontraram foi o que muita gente suspeitava, mas ninguém tinha provado com dados: vereadores acumulando dezenas de faltas sem justificativa, com salários integrais no fim do mês.

Mas antes de entrar nos números, preciso dizer uma coisa com toda clareza: o que acontece na Câmara Municipal de Aracaju não é um escândalo isolado de uma capital no Nordeste. É a expressão local de um corporativismo que contamina praticamente todas as esferas de poder no Brasil. Quem achar que exagero, que se lembre do STF.

O Supremo Tribunal Federal,  a mais alta corte do país, a instituição que deveria ser o guardião último da república, acumula escândalos envolvendo seus próprios ministros. Casos que, se envolvessem um cidadão comum, teriam desfecho rápido e rigoroso. Mas quando o investigado é da casa, o corporativismo encontra seu habitat natural: o processo esfria, a solidariedade institucional fala mais alto, e a transparência só aparece quando é impossível evitá-la.

O mesmo padrão que protege o vereador faltoso em Aracaju protege o servidor irregular em Brasília: a instituição fecha fileira em torno dos seus, o cidadão paga a conta, e a transparência, quando existe, é arrancada à força.

Na Câmara de Aracaju, os dados de frequência dos vereadores só vieram a público depois que o Mangue acionou o Ministério Público de Sergipe em dezembro do ano passado. Quando a reportagem solicitou diretamente à Casa os registros de faltas, a resposta foi uma indicação de links para atas de sessões e notas taquigráficas, sob o argumento de que seria possível “extrair” as informações manualmente. 

Extrair manualmente. Em documentos extensos, sem padronização, sem organização por parlamentar. Isso transfere ao solicitante o trabalho de reconstruir uma base de dados que já existe internamente, mas que estava inacessível aos cidadãos, comportamento que contraria o princípio da transparência ativa. 

E convenhamos, toda corporação tem a sua forma de esconder o que não quer mostrar. Na câmara municipal, o instrumento é o labirinto burocrático. No STF, é o sigilo processual. O resultado é sempre o mesmo: o cidadão que paga fica de fora.

Dar nome aos bois: a lista completa

Chega de generalização. Os dados estão na reportagem do Mangue e merecem ser nomeados.

O subsídio mensal bruto de cada vereador de Aracaju é de R$ 22.865,16 — por 30 horas semanais de trabalho, com três sessões ordinárias por semana.  Cada dia de ausência, pela simulação do próprio Mangue com base na regra informada pela Câmara, equivale a aproximadamente R$ 762,17. Com esse parâmetro, veja o que os dados revelam:

Os mais ausentes em 2025 e início de 2026:

1. Moana Valadares (PL) — 65 ausências no período total

2. Miltinho Dantas (PSD) — 32

3. Joaquim da Janelinha (PDT) — 28

4. Vinícius Porto (PDT) — 28

5. Soneca (PSD) — 28

6. Thannata da Equoterapia (Mobiliza) — 24

7. Sávio Neto de Vardo (Podemos) — 23

8. Ricardo Vasconcelos (PSD) — 22 (presidente da Câmara)

9. Isac (União) — 20

10. Levi Oliveira (PP) — 17

Agora o detalhe que transforma ausência em escândalo: Joaquim da Janelinha acumulou 27 faltas em 2025 sem nenhuma justificativa formal nos registros oficiais e não houve qualquer desconto em sua remuneração, com pagamento integral mês a mês.  Zero desconto. Vinte e sete faltas. Salário cheio.

Vinícius Porto teve 29 ausências em 2025, sendo 22 sem justificativa, com salário integral mantido e reduções pontuais em apenas dois meses, um deles com pagamento acima do valor padrão. Em mês com faltas.

Isac, líder do governo Emília Corrêa na Câmara, teve 29 ausências, 20 sem justificativa e recebeu integralmente os vencimentos em todos os meses analisados. 

Moana Valadares faltou a 48,8% das sessões no período analisado. Os descontos em sua remuneração somaram R$ 28.292,43 — sem correspondência proporcional com o volume de ausências registrado.  Para quem recebe quase R$ 23 mil por mês e falta a metade das sessões, R$ 28 mil de desconto em catorze meses é número que não fecha em nenhuma conta honesta.

Os menos ausentes,  para que o registro seja justo:

Na outra ponta, Pastor Diego (União) registrou apenas 2 ausências em 2025. Fábio Meireles (PDT) e Nitinho (PSD) tiveram 4 cada. Alex Melo (PRD) somou 5 ausências. 

O que a regra diz e o que acontece de fato

A Câmara tem resposta pronta. O presidente Ricardo Vasconcelos afirmou que o regimento interno prevê até cinco licenças mensais sem desconto, e que a partir da sexta falta incidiria desconto proporcional de 1/30 do salário por ausência. 

Parece razoável no papel. O problema é que não há como verificar se a regra é aplicada. Os contracheques disponíveis no Portal da Transparência não apresentam qualquer discriminação sobre a origem dos descontos. Não há indicação se as reduções decorrem de faltas, licenças, ajustes administrativos ou outros fatores. 

O jornalismo que custa caro e que é indispensável

O Mangue Jornalismo é uma associação sem fins lucrativos. Sobrevive do apoio dos leitores. Não tem pauta combinada com anunciante, não tem publisher que decide quem pode e quem não pode ser investigado. Foi essa redação pequena e obstinada que cruzou frequência com contracheque, acionou o MP, publicou os nomes e colocou os números na mesa.

Esse é o jornalismo que defendo há toda a minha vida. E o preço que paguei por defendê-lo me dá autoridade para dizer: ele é necessário não apesar do incômodo que causa, mas por causa dele.

Vereadores faltosos agradecem quando não há quem pergunte. Corporações prosperam quando não há transparência. Instituições se protegem quando não há jornalismo independente para furar o bloqueio.

A reportagem de Ana Paula Rocha e Wendal Carmo furou. 

Leia em manguejornalismo.org. E se puder, apoie. Porque jornalismo assim não se sustenta sozinho e sem ele, a lista dos faltosos cresce em silêncio.

E olha, me perdoem a franqueza, ou não, tanto faz, mas o que a Câmara fez ali tem nome técnico: suicídio comunicacional. Faltou uma boa assessoria de comunicação e jurídica. 

Quando você é confrontado com dados concretos, verificáveis, cruzados com documentos públicos, a última coisa que um profissional de comunicação minimamente competente recomendaria seria partir para cima do jornalista. Isso não é estratégia. É desespero!!

Sabe o que eu faria se fosse assessor do presidente Ricardo Vasconcelos ou dos respectivos vereadores, naquele momento?

Primeiro, respiraria fundo. Depois, diria a ele para engolir o orgulho e o choro, reconhecer a falha na transparência, anunciar melhorias no sistema de divulgação e agradecer, isso mesmo, agradecer, a iniciativa do Ministério Público e da imprensa. Pronto, crise administrada. Assunto encerrado. Página virada.

Em vez disso, os ditos representantes do povo de aju city, escolheram acusar o Mangue de motivação política. Obrigou uma redação independente a se defender publicamente do óbvio. E transformou uma reportagem sobre frequência parlamentar em um debate nacional sobre liberdade de imprensa.

Parabéns pela estratégia. Não poderia ter sido pior nem se fosse intencional.

Atacar jornalista com dado na mão não é comunicação. É confissão.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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