ARACAJU X MACEIÓ: A DISPUTA DA ORLA MAIS BONITA DO NORDESTE QUE NINGUÉM PEDIU MAS TODO MUNDO QUER VER
POR TIAGO HÉLCIAS

Eu recebi o vídeo. Recebi várias vezes. De sergipanos que queriam me ver concordar. De alagoanos que queriam me ver reagir. E de pessoas que simplesmente me conhecem bem o suficiente para saber que eu não sou de ficar calado.
Então vamos lá.
Na última quarta-feira, dia 15 de abril, o vereador Nitinho Vitale, do PSD, usou a tribuna da Câmara Municipal de Aracaju para tratar de um tema legítimo e necessário: as concessões e ocupações de espaços públicos nas orlas da capital sergipana, incluindo Atalaia, Mosqueiro e o bairro Industrial.  Até aí, tudo bem. É papel do legislador. É o que se espera de um mandato comprometido com a cidade.
O problema é o que veio a seguir.
Ele disse:
“A orla é o cartão-postal de Aracaju, de Sergipe e do Brasil. Nós temos que ter cuidado com as concessões que estão sendo dadas na orla de Atalaia. Se não, vai virar uma favela, como virou uma favela na orla de Maceió. Um cartão-postal daquele, bonito, mas a orla de Maceió hoje é uma favela.” 
Pronto. Dito. Gravado. Compartilhado aos milhares.
Eu conheço o Nitinho. Temos uma relação de respeito, de afinidade até. E é exatamente por isso que não me calo, porque o respeito verdadeiro não admite silêncio diante do equívoco.
Antes de tudo, uma declaração de interesse
Não falo disso como observador neutro. Nunca fui neutro nessa história.
Sou sergipano de Aracaju, criado na cidade com orgulho. Mas meu pai é alagoano e a infância que eu tive foi também muito alagoana, muito Maceió, muito daquele jeito de viver que quem conhece a cidade de dentro sabe o que é. Não é só sotaque. É afeto, é memória, é pertencimento.
Depois, fui trabalhar lá. Apresentei o Balanço Geral Alagoas. Cobri Maceió por dentro, com o olhar de quem não aceita meia verdade. E aprendi a distinguir o que a cidade é do que alguns querem que ela pareça ser nas redes sociais.
Por isso, quando ouço alguém chamar Maceió de favela, eu reajo com duas camadas: a do jornalista que sabe que não é verdade, e a do sujeito que tem história afetiva com aquele lugar.
O que o Nitinho viu e o que ele não viu
Existe uma Maceió que circula pelas redes sociais, filtrada, iluminada, cheia de pôr do sol cor de laranja na Pajuçara. E existe a Maceió que quem trabalhou lá conhece: uma cidade de dois mundos, onde a parte alta e a parte baixa parecem cidades diferentes, onde as desigualdades são profundas e onde nem toda obra que aparece no Instagram chega a quem mais precisa.
Eu fui crítico dessa administração. Disse publicamente, mais de uma vez, que o atual prefeito administrava a cidade mais pelas redes sociais do que pelas ruas. O marketing era impecável. A gestão, desigual. Isso faz parte do retrato completo.
Mas mesmo com tudo isso, chamar a orla de Maceió de favela é um erro factual. Há um detalhe histórico que precisa ser dito com honestidade: sim, houve um tempo em que o trecho do Jaraguá, o bairro mais antigo de Maceió, concentrava uma ocupação precária à beira-mar. Isso aconteceu. Mas esse tempo passou. Usar o passado como se fosse o presente não é análise, é desinformação. E na tribuna da Câmara, desinformação tem outro nome: irresponsabilidade.
A reação foi imediata e justa
Internautas passaram a comentar em massa nas publicações do parlamentar, principalmente em seu perfil no Instagram, com críticas à fala e pedidos de respeito à capital alagoana. 
A ex secretária de Estado do Turismo de Alagoas, Bárbara Braga, foi às redes sociais para contestar a fala, afirmando que falta ao vereador referência e informação sobre a orla da capital alagoana, e finalizou com um recado direto: “Tire Maceió da sua boca que aqui o turismo vai muito bem, obrigada.” 
Duro? Sim. Merecido? Também.
A própria Câmara Municipal de Aracaju publicou nota de esclarecimento, afirmando que não compactua com a referida fala por entender que ela não representa o pensamento institucional do Parlamento, reconhecendo a importância de Maceió como um dos principais destinos turísticos do país. 
Quando a própria casa do vereador se distancia publicamente da sua fala, é porque o erro foi grave.
A intenção era boa. A execução, não.
Preciso ser justo: a preocupação de Nitinho com a orla de Atalaia é legítima. Aracaju tem uma das orlas mais bem estruturadas do Nordeste. Qualquer ocupação desordenada, concessão mal regulada ou ausência de planejamento pode comprometer o que foi construído ao longo de décadas. Esse debate precisa acontecer. O projeto de lei que ele quer apresentar pode ser bem-vindo.
Mas um discurso político não é conversa de bar. O que é dito no plenário tem peso, tem alcance, tem consequência. E quando você escolhe depreciar outra cidade para valorizar a sua, você não está argumentando, você está ofendendo. E ainda por cima errando nos fatos.
O paralelo honesto que ninguém quer fazer
Já que estamos falando de orla, de turismo e de gestão urbana, vamos fazer o paralelo com honestidade, a que serve, não a que agrada.
Eu sempre disse, meio na brincadeira e meio a sério, que Deus foi muito justo na distribuição. Aracaju é uma cidade hiper organizada, bem gerida, compacta, funcional. Se tivesse o mar de Maceió, não existiria para mais ninguém, seria tomada pelo turismo e perderia a alma que tem. Deus equilibrou: deu a Maceió o mar mais bonito do Nordeste e a Aracaju a inteligência de gestão urbana que pouquíssimas capitais brasileiras conseguiram construir.
São duas cidades que têm muito a se oferecer mutuamente e pouco a se diminuir.
Maceió tem o turismo como mola propulsora. Tem uma orla que atrai visitantes de todo o Brasil e de fora dele, tem uma hospitalidade que é quase uma política pública, tem um povo que sabe receber. Aracaju tem planejamento, tem serviço público que funciona, tem qualidade de vida real para quem mora lá, não apenas para quem aparece nas fotos.
A pergunta certa não é “quem tem a melhor orla”. A pergunta certa é: o que cada uma dessas cidades pode aprender com a outra antes que o orgulho mal colocado impeça o aprendizado?
Uma palavra final para o Nitinho e para todos nós
Política feita com afeto pela cidade é bonita. Mas afeto sem informação vira paroquialismo. E paroquialismo, na tribuna, vira ofensa.
Fico feliz que Aracaju tenha vereadores que amam a cidade a ponto de discutir a orla com paixão. Quero isso. Mas quero também que essa paixão venha acompanhada de dados, de contexto, de respeito ao vizinho.
Porque no fim das contas, Sergipe e Alagoas compartilham mais do que uma fronteira. Compartilham história, cultura, famílias…
A orla não merece ser palco de disputa de vaidade entre cidades que têm muito mais a ganhar olhando uma para a outra do que se diminuindo.
Tiago Hélcias é jornalista, sergipano de Aracaju, com raízes alagoanas, e mora em Portugal. Já apresentou o Balanço Geral Sergipe e Alagoas, conhece Maceió e Aracaju de dentro, não de passagem.
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