UM DECRETO NO DIÁRIO OFICIAL E A PF DENTRO DO STF: COMO MORAES TRANSFORMOU SEU INVESTIGADOR EM ASSESSOR


Existe um teste simples para medir a coerência de qualquer instituição ou comentarista político: o teste da troca de sujeito. Pega-se uma ação, substitui-se o protagonista pelo adversário e observa-se se a indignação permanece a mesma. No Brasil de 2026, esse teste falha de maneira retumbante quando o assunto é a relação entre o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Federal. E o episódio desta semana é a prova mais recente disso.

O delegado que migrou de um andar para o outro

Nesta terça-feira, 10 de março de 2026, o delegado federal Fábio Shor foi nomeado assessor do gabinete do ministro Alexandre de Moraes, no STF. Shor foi o responsável pelo inquérito da trama golpista que embasou a condenação de Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão. A nomeação foi oficializada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, no Diário Oficial da União. 

Leia de novo, devagar.

A cessão de Shor foi um pedido do próprio Moraes à PF.  Ou seja: o ministro relator de um processo criminal pediu a transferência do delegado que conduziu as investigações desse mesmo processo para trabalhar diretamente em seu gabinete. O investigador e o julgador agora dividem o mesmo corredor. E o silêncio dos guardiões da democracia é ensurdecedor.

A memória curta da indignação seletiva

Há poucos anos, qualquer mexida de Bolsonaro na estrutura da Polícia Federal era tratada como um atentado à República. O coro era afinado: interferência indevida, subversão institucional, ameaça ao Estado de Direito. Eu mesmo cobri, de perto, a histeria coletiva que tomou conta do noticiário a cada troca de comando na corporação durante o governo anterior.

A PF teve quatro chefes diferentes ao longo do governo Bolsonaro  e cada substituição virou escândalo nacional, símbolo de autoritarismo, pretexto para editoriais inflamados e sessões intermináveis no Congresso.

Agora, um ministro do STF que está no centro de uma investigação por suspeitas gravíssimas recruta para seu gabinete o delegado que esteve à frente das investigações que ele mesmo relatou.

O caso Vorcaro e o joinha que não some

O pano de fundo desse movimento não é trivial. No dia 17 de novembro de 2025, horas antes de ser preso pela PF ao tentar embarcar para o exterior, o banqueiro Daniel Vorcaro trocou mensagens com um contato no celular dele. O conteúdo das nove mensagens, trocadas entre 7h19 e 20h48 daquele dia, foi revelado pela jornalista Malu Gaspar no O Globo e aponta indícios de corrupção passiva e obstrução de Justiça. 

Moraes negou ter recebido as mensagens, chamando-as de “ilação mentirosa”. Mas a PF periciou o celular de Vorcaro. As mensagens existem. Os horários batem. As respostas estão registradas no aparelho apreendido. 

O STF, por sua vez, emitiu nota técnica dizendo que as mensagens de visualização única enviadas por Vorcaro em 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos, e que a Corte não pode revelar o nome do possível destinatário por causa do sigilo determinado na investigação. 

Traduzindo: não posso dizer com quem era a conversa, mas garanto que não era com o Moraes. Confia em mim.

Uma investigação sobre Moraes dependeria de autorização do próprio STF, onde tramitaria em razão do foro privilegiado, um procedimento inédito e que enfrentaria obstáculos jurídicos e institucionais. Até o momento, a PF e a PGR não se moveram nesse sentido. 

Quando a PF serve ao Supremo

No dia 5 de março de 2026, a PF deflagrou a Operação Dataleaks para desarticular um grupo especializado em invasão de sistemas e comercialização ilícita de dados pessoais. Entre os alvos estava uma plataforma que mantinha informações sensíveis de integrantes do STF, incluindo o ministro Alexandre de Moraes. A operação integra o inquérito das chamadas fake news, aberto em 2019 e que tramita em sigilo até hoje. 

Diante de toda essa teia, o deputado Nikolas Ferreira protocolou representação na PGR pedindo que o órgão avalie, se presentes os requisitos legais, até mesmo a prisão preventiva de Moraes, e que apure se as mensagens podem caracterizar crimes, obstrução de Justiça ou interferência indevida em investigações. 

A PGR não respondeu. O Senado não se manifestou. Moraes continuou julgando processos. E agora, como cereja no topo do bolo, o delegado que esteve no centro de tudo isso foi transferido para trabalhar ao lado do ministro.

A pergunta que precisa ser feita

Quando Bolsonaro tentava alterar a cúpula da PF, a pergunta que a imprensa não se cansava de fazer era: “Quem ele quer colocar lá e por quê?” Era uma pergunta legítima. Eu mesmo a fiz, em diferentes versões, ao longo de quatro anos de cobertura.

Então me permito fazer a mesma pergunta agora, com a mesma seriedade: por que Moraes quis especificamente o delegado Shor em seu gabinete? No STF, é possível que ele atue como assessor de Moraes e possa auxiliá-lo em inquéritos sob sua relatoria.  Os mesmos inquéritos que Shor investigou. O mesmo ministro que os relatou. O mesmo processo em que Moraes é figura central nas suspeitas que circulam na imprensa.

Não estou dizendo que há crime. Estou dizendo que a pergunta merece o mesmo volume de indignação que durante anos foi reservado para movimentos bem menores de um presidente que nunca chegou perto desse nível de imbricamento entre quem investiga e quem julga.

A seletividade da memória política brasileira não é uma falha do sistema. É o sistema.​​​​​​​​​​​​​​​​


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

Siga nas redes para continuar a conversa

Acesse: https://linklist.bio/tiagohelcias

Comentários

Postagens mais visitadas