“NÃO TEM BASE NA INVESTIGAÇÃO”: RELATOR DA CPMI DO INSS DESMONTA CONVOCAÇÃO DE ANDRÉ MOURA PELA CÚPULA DO PT
POR TIAGO HÉLCIAS

O relator falou. E o que ele disse importa.
Tem horas em que uma entrevista de rádio vale mais do que uma nota de imprensa, uma postagem de parlamentar ou uma live de meia hora.
Esta terça-feira, 03/03, foi uma dessas horas.
O deputado Alfredo Gaspar, relator da CPMI do INSS, deu entrevista a rádio Metropolitana em Aracaju. Foi questionado sobre a convocação do ex-deputado André Moura. E respondeu com uma objetividade que, na política, é quase um ato de coragem: até o momento, não identificou nos dados analisados nenhum elemento que vincule André Moura ao núcleo central das investigações.
“Eu confesso a você que até hoje esse nome não apareceu em qualquer dado da investigação. Eu não sei qual foi a motivação porque realmente eu não li. Isso deve ter sido algum deputado que fez o requerimento. Agora, não tem base na investigação. Não conheço o senhor André Moura, não tenho qualquer relação, como também não tenho relação com esse pedido. Eu desconheço qual é a motivação. Se eu lhe disser, eu nunca li esse requerimento. Ele estava na pauta e foi aprovado em bloco.”
Em outro momento da entrevista, ao ser provocado sobre a profundidade das apurações e se havia algum elemento concreto contra o ex-parlamentar sergipano, o relator reforçou:
“Eu defendo a investigação contra quem quer que seja. Agora, contra esse requerido aí, André Moura, eu até hoje não vi nada relacionado à investigação. O que eu posso dizer em relação à relatoria é que eu nunca vi nada relacionado a essa pessoa.”
Parei. Ouvi de novo. E decidi escrever sobre isso.
Não porque a fala encerre qualquer debate. Investigação é processo vivo, e novos elementos podem surgir a qualquer momento. Escrevo porque a declaração vem de quem não é personagem secundário nessa história.
Conheço Alfredo Gaspar de antes da política. Quando ele ainda era Procurador Geral de Justiça em Alagoas, o entrevistei várias vezes no Balanço Geral, lá na Record TV. Era e continua sendo um homem de perfil técnico, pouco afeito a improviso, do tipo que mede cada palavra antes de soltá-la ao microfone. Depois, quando disputou a Prefeitura de Maceió, essa característica só se acentuou. Hoje, no primeiro mandato federal, está construindo um reconhecimento que já ultrapassa as fronteiras de Alagoas. Sua atuação na CPMI tem sido marcada exatamente por isso: discurso fundamentado, sem palanque e sem proteção prévia a ninguém.
É justamente por isso que o que ele disse hoje pesa.
A CPMI do INSS não é uma comissão qualquer. Foi criada para apurar um esquema de fraudes que sangrou aposentados e pensionistas, gente que esperou uma vida inteira por uma renda que alguém decidiu desviar. O impacto social é profundo. O potencial de responsabilização, criminal e político, é real. O relator é a peça que organiza o labirinto: filtra narrativas, confronta versões, e no final assina o documento que pode encaminhar indiciamentos.
Quando esse homem diz que não viu conexão, a pergunta que surge não é retórica. É objetiva: qual foi o critério da convocação?
Já escrevi aqui outras vezes sobre tentativas de associar André Moura a episódios que, até hoje, não avançaram para comprovações formais. Não faço isso por defesa automática de ninguém, o jornalismo que pratico não funciona assim. Faço porque acompanhar política com seriedade exige exatamente isso: distinguir o que tem lastro do que tem intenção.
E a política brasileira tem um histórico longo e pouco glorioso de usar CPIs como campo de batalha. Algumas produzem resultados históricos, que ficam. Outras servem para tensionar adversários, alimentar manchetes e ampliar desgaste.
Quando um requerimento entra em bloco, sem debate individualizado, o risco é diluir o que deveria ser foco em névoa.
A entrevista desta terça não absolve nem condena André Moura. Não é esse o ponto.
O ponto é que convocação pública, num processo que apura desvios contra os mais vulneráveis, não pode prescindir de fundamentação. Não pode ser um movimento tático político disfarçado de investigação.
Quando o próprio relator diz que não encontrou, até aqui, o fio que conecta o nome ao crime investigado, isso não é detalhe. É dado.
E dado, no jornalismo e na política séria, precisa ser levado a sério.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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