VENTURA REACENDE O ATAQUE A LULA E INCENDEIA PORTUGAL ÀS VÉSPERAS DA ELEIÇÃO
POR TIAGO HÉLCIAS

Viver em Portugal nesta altura — às vésperas de mais uma eleição presidencial, marcada para 18 de janeiro — é observar o país entrar num estado peculiar: uma mistura de fadiga política, expectativa e… espetáculo. E, no meio disso tudo, André Ventura reaparece como sempre: não apenas candidato, mas protagonista de uma narrativa feita para incendiar debates, dividir fortemente opiniões e puxar para si todos os holofotes.
E é nesse cenário que uma frase antiga, dita lá em 2021, volta a circular como se fosse novidade. Não porque o país resgatou espontaneamente, mas porque o próprio Chega a reativou em suas redes oficiais. O partido publicou um vídeo que recoloca Ventura no centro do palco com a velha provocação dirigida a Lula da Silva:
“Eu não gosto de estar com ladrões, confesso!”
O algoritmo fez o resto.
O reel explodiu.
E o tema voltou a incendiar tanto Portugal quanto os brasileiros que aqui vivem.
Por que ressuscitar essa frase agora?
Essa é a pergunta que quem vive aqui — e acompanha a política com lupa — inevitavelmente se faz. E a resposta é quase óbvia para quem conhece o jogo: não existe coincidência em campanha eleitoral.
Ventura sabe que, cada vez que menciona Lula, não fala apenas com Portugal. Ele fala com uma enorme comunidade brasileira que vive aqui, politicamente mobilizada, intensamente dividida, e que funciona, de certa forma, como uma extensão emocional do debate político do Brasil. E, ao mesmo tempo, fortalece a imagem que ele vende internamente: a do candidato “sem medo de dizer o que pensa”, “contra a corrupção”, “contra o sistema”.
Essa retomada da frase não é um lapso do passado:
é uma estratégia, uma sinalização, uma marcação de território.
A eleição presidencial portuguesa: um campo aberto para o confronto
Portugal vive um momento politicamente sensível. Depois de sucessivas crises, dissoluções, escândalos e tensões internas, a presidência da República — tradicionalmente vista como um órgão moderador — ganhou nova importância. E Ventura, mais uma vez candidato, tenta transformar essa eleição numa disputa civilizacional entre “o país que ele quer construir” e “o sistema que ele promete derrubar”.
Reavivar a discussão sobre Lula faz parte desse plano.
Ventura não quer apenas driblar adversários internos; ele quer colocar-se como ator global da direita radical. Quer transformar a eleição presidencial portuguesa num palco que ecoa para fora, sobretudo para o Brasil, onde esse tipo de embate já faz parte da paisagem.
E o vídeo viral não fala só sobre Lula: fala sobre o próprio Ventura
Quem observa de dentro percebe claramente: o alvo é Lula, mas a mensagem é para os portugueses.
Repetir a frase — que já causava barulho em 2021 — é uma forma de Ventura dizer:
“Eu continuo o mesmo. Eu não mudei. Eu não negocio com a velha política. Eu estou aqui para rasgar o protocolo.”
É a diplomacia da ruptura em forma de slogan.
E funciona.
Funciona porque mobiliza a base.
Funciona porque irrita os adversários.
Funciona porque gera manchetes.
Funciona porque reacende polarizações.
E funciona porque, nesta campanha, Ventura precisa disso para se manter no centro da disputa.
E claro, há o histórico — e ele não é pequeno
Quem viveu ou acompanha Portugal lembra bem: a hostilidade de Ventura contra Lula não começou ontem. Em abril de 2023, durante a visita oficial do Presidente brasileiro a Portugal, Ventura e os deputados do Chega abandonaram o Parlamento ao grito de “bandido!” — criando um momento de tensão diplomática que atravessou o Atlântico em segundos.
O protesto rendeu críticas, manchetes, vídeos virais e garantiu ao Chega aquilo que mais deseja: atenção.
Não importa que Lula esteja diplomática e institucionalmente reabilitado no Brasil. No jogo de Ventura, Lula vale mais como símbolo do que como presidente.
A lógica é simples, mas poderosa: dividir para ampliar
O uso de Lula como antagonista cumpre múltiplos objetivos simultâneos:
1. Reforça a narrativa anti-sistema
Ventura se coloca como o candidato que não dobra, não recua, não cumpre formalidades.
2. Mobiliza a comunidade brasileira em Portugal
Que é diversa, politizada e sempre reage — para apoiar ou para criticar — mas reage.
3. Garante repercussão internacional
A direita radical vive de ecos globais — e Ventura sabe disso.
4. Desvia o foco das fragilidades internas
Sempre que o debate ameaça tocar em questões estruturais portuguesas, Ventura traz de volta o inimigo externo.
Então, o que realmente está em jogo?
Do lado de cá, vivendo em Portugal, é evidente que esse confronto simbólico com Lula serve menos para discutir Brasil e mais para moldar Portugal.
Ventura usa Lula como espelho, como antagonista e como pretexto.
Não é sobre relações exteriores — é sobre narrativa interna.
Não é sobre diplomacia — é sobre campanha.
Não é sobre o Brasil — é sobre janeiro.
E o vídeo que voltou a viralizar agora é apenas a preparação para o próximo ato.
Confira:
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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