ENQUANTO PORTUGAL CORTA PRIVILÉGIOS, O BRASIL TORRA R$ 20 BILHÕES EM SUPERSALÁRIOS

POR TIAGO HÉLCIAS 


Há temas que eu, em quanto jornalista, acompanho por anos, cruzo com eles em reportagens, já vi em relatórios, em editoriais — mas que só se revelam de verdade quando o número aparece cru, sem maquiagem, sem a retórica apaziguadora: 133 mil vezes.

Esse é o tamanho do abismo entre o que o Brasil gasta com supersalários e o que Portugal gasta com a mesma rubrica. Quando li esse número pela primeira vez, aqui mesmo, do meu lado de cá do Atlântico, confesso: achei que tinha entendido errado. Reli. Confirmei. Suspirei.

Sim, 133 mil vezes.

O tipo de diferença que, se fosse uma criança, já nasceria com PhD em desigualdade.

E aí veio o estudo do Movimento Pessoas à Frente e da República.org, esse raio-x incômodo que expõe a nudez estrutural da administração pública brasileira. É uma espécie de ultrassom institucional: você vê ali, nitidamente, a deformação sendo gestada há décadas — o teto que virou chão, a exceção que virou regra, o privilégio que virou identidade.

O teto que não é teto e a criatividade que nunca dorme

Na teoria, o teto remuneratório brasileiro é uma espécie de limite civilizatório: ninguém pode ganhar mais que um ministro do STF, hoje na casa dos R$ 46 mil. Na prática, virou um teto solar aberto em pleno verão.

Auxílio daqui, penduricalho dali, verba indenizatória acolá… O Brasil transformou complementaridade salarial em esporte olímpico. Sempre aparece uma tese, um parecer, um voto divergente, um entendimento “excepcionalíssimo” que abre uma brecha do tamanho de Brasília.

E eu, como jornalista, já nem me surpreendo quando descubro que há juízes ganhando US$ 400 mil (PPP) por ano. A surpresa, se existe, está na naturalidade com que isso é narrado: como se fosse inevitável, quase biológico.

Os números que não deixam ninguém dormir em paz

Enquanto outros países se equilibram entre regras claras e remunerações moderadas, o Brasil tomou um caminho próprio — e caro. Muito caro.

O custo anual dos supersalários chega a R$ 20 bilhões.

A Argentina, que nunca foi sinônimo de austeridade, gasta 21 vezes menos.

Portugal gasta 133 mil vezes menos — e isso, para mim, é uma metáfora perfeita.

Porque quando você vive entre Brasil e Portugal, essa comparação salta da tabela e ganha rosto.

Aqui em Portugal, você vê um juiz que ganha seis vezes menos do que um juiz brasileiro.

Mas veja bem: ele cumpre horário, segue o teto, não cria benefício exótico, não precisa de “auxílio toga”, “auxílio paletó”, “auxílio pensamento profundo”.

É outra mentalidade.

Outro planeta.

Outro vínculo com o serviço público.

A elite que vive acima do teto — e acima da realidade

É duro dizer, mas é preciso: esse debate não é técnico. É cultural. É político. É moral.

Os supersalários são a face mais nítida de uma elite burocrática que se protege a si mesma — um bloco hermético formado por magistrados, procuradores, conselheiros de tribunais, todos blindados por um sistema que eles próprios interpretam.

E quando alguém tenta discutir o assunto, vem sempre aquela missa antiga:

“Não podemos precarizar o Estado.”

“É necessário manter a atratividade das carreiras.”

“Não se pode comparar com o setor privado.”

Curioso como, no Brasil, o teto só é sagrado para quem está abaixo dele.

Vendo esse escândalo daqui de Portugal

A repercussão por aqui foi um espetáculo à parte.

Lendo os jornais portugueses, dava até para imaginar o editor perguntando ao estagiário se os dados estavam certos. Colunas inteiras dedicadas ao choque numérico: como pode um país gastar 60 mil dólares e outro gastar 8 bilhões na mesma conta?

A televisão portuguesa tratou o tema com aquela incredulidade elegante que só os europeus dominam:

uma mistura de espanto e desânimo, como se já esperassem o pior, mas mesmo assim o pior conseguisse surpreender.

Nos círculos acadêmicos e nos think tanks de Bruxelas, o Brasil virou estudo de caso — não o caso que se leva para imitar, mas aquele que o professor apresenta para mostrar onde a máquina pública pode desandar quando o corporativismo toma o volante.

Fiquei particularmente impressionado com uma frase que ouvi em Lisboa, numa roda com especialistas em governança:

“No Brasil, o teto existe como ideia — não como limite.”

É duro, mas é justo.

O Brasil precisa decidir para quem o teto é

Toda sociedade precisa escolher onde coloca seu escândalo.

O do Brasil, hoje, é esse: aceitar como normal que milhares de pessoas ganhem mais do que a Constituição permite — e que ganhem não por mérito extraordinário, mas por interpretação conveniente.

E, vivendo em Portugal, essa constatação dilata ainda mais o desconforto.

Porque aqui cada euro público passa por mais filtros que água mineral.

Enquanto isso, no Brasil, bilhões evaporam anualmente para alimentar uma engrenagem que se sustenta pela opacidade e pelo hábito.

O Brasil vai seguir assim?

Vai continuar sustentando uma elite acima da lei, acima do teto, acima do país?

Ou finalmente vai encarar a mutilação moral que isso representa?

Seja qual for a resposta, ela custará caro.

A diferença é simples:

ou o país paga o preço de enfrentar o problema agora,

ou continuará pagando — com juros, correção e penduricalhos — pelos próximos 40 anos.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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