UM EX-ATLETA EM ATIVIDADE: A CONVOCAÇÃO QUE O BRASIL QUERIA VER, NÃO A QUE A SELEÇÃO PRECISAVA
POR TIAGO HÉLCIAS

Ontem, 17/05, o Brasil parou. Não para ver um gol. Não para celebrar uma conquista. Parou para assistir a uma convocação ser transformada em espetáculo de entretenimento global dentro do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Setecentos profissionais de mídia de 14 países. Drones desenhando o Canarinho no céu. Marcas ativando campanhas em tempo real. E Carlo Ancelotti no papel principal de uma peça que estava, na verdade, escrita muito antes de ele abrir a boca.
A grande notícia que todos queriam saber foi confirmada: Neymar está de volta e vai para o Mundial.  Como se fosse surpresa. Como se alguém, em algum momento, acreditasse de verdade que o nome dele ficaria de fora.
Vou ser direto: isso não foi uma decisão técnica. Foi um negócio.
O ESPETÁCULO JÁ ESTAVA MONTADO
Pense bem. Neymar não veste a camisa da Seleção desde outubro de 2023 e sequer foi convocado por Ancelotti em nenhuma data FIFA anterior à Copa.  Em campo, os números da temporada são modestos: atuou em apenas 15 dos 31 jogos que o Santos disputou em 2026. No Campeonato Brasileiro desta temporada, somou quatro gols e duas assistências em oito partidas. 
Mas aí vem a pergunta que a maioria, com raras exceções, da imprensa esportiva brasileira não quer fazer em voz alta: se esses fossem os números de qualquer outro atacante de 34 anos, com joelho remendado e histórico recente de festas mais famosas do que seus jogos, ele estaria nessa lista?
A resposta é não. E todo mundo sabe.
231 MILHÕES DE RAZÕES
A CBF não convoca jogadores. A CBF convoca audiência. E Neymar é, hoje, a maior máquina de audiência do futebol brasileiro, não necessariamente o melhor jogador, mas certamente o mais rentável.
Os 26 convocados por Ancelotti somam juntos 415 milhões de seguidores no Instagram. Sozinho, Neymar responde por 55% desse total, com 230 milhões de fãs na rede. O que mais se aproxima é Vinícius Júnior, com 59,7 milhões.  Traduzindo para o idioma que a CBF realmente fala: Neymar vale mais do que todos os outros 25 convocados somados. Em cliques. Em impressões. Em contratos publicitários.
A gigante americana Nike é hoje a principal parceira comercial da CBF, com um contrato que gira na casa de US$ 87 milhões anuais, podendo ultrapassar US$ 100 milhões com royalties e metas comerciais.  E toda vez que Neymar aparece com a camisa da Seleção, o swoosh da Nike vai junto, mesmo que Neymar tenha contrato pessoal com a concorrente Puma. Quando veste a camisa da Seleção, o contrato da CBF “engole” praticamente todos os acordos individuais do atleta. Na prática, a Nike ganha uma guerra publicitária brutal sem precisar pagar diretamente um centavo ao jogador. 
Isso se chama jogada de mestre. Ou cinismo, dependendo do ângulo.
A NOVELA FOI ROTEIRIZADA
Toda a novela criada nos últimos meses, a cautela médica, as ausências em convocações anteriores, a conversa sobre “fim de ciclo”, terminou exatamente como a CBF queria: com aplausos, delírio popular, flashes, espetáculo e uma convocação transformada em evento de entretenimento global. 
Minutos após a convocação, Neymar já aparecia em campanhas de ao menos três patrocinadores.  A Puma lançou um vídeo com ele rasgando uma lista que dizia que não seria convocado. A Red Bull comemorou. A Tropicool publicou em inglês. O show estava pronto.
Isso não é improvisação. É planejamento de marketing de alto nível com a camisa amarela como produto central.
ANCELOTTI: UM GRANDE TÉCNICO NUM AMBIENTE IMPOSSÍVEL
Quero ser justo com Ancelotti. Ele é um dos maiores técnicos da história do futebol, sua carreira dispensa adjetivos. E provavelmente foi o único ator honesto nessa história toda.
Mas até o melhor técnico do mundo opera dentro de um ambiente. E o ambiente da CBF, com seus contratos bilionários, seus patrocinadores ansiosos e sua vocação histórica para transformar futebol em política, é um ambiente que dobra vontades.
Ao anunciar a convocação, Ancelotti declarou: “Escolhemos Neymar não porque pensamos que vai ser um bom reserva, e sim porque pode trazer suas qualidades para a equipe, mesmo que jogue um minuto.” 
“Mesmo que jogue um minuto.” Em qualquer outro contexto, essa frase seria escândalo. Aqui, virou manchete positiva. Um jogador convocado para o maior torneio do planeta com a justificativa de que talvez entre por sessenta segundos. Ancelotti sabe o que está dizendo, e ao dizer isso, está admitindo, nas entrelinhas, que essa convocação tem uma lógica que vai além do campo.
Não é culpa dele. É o sistema. E o sistema, no Brasil, atende também pelo nome e sobrenome: CBF.
A VIDA FORA DO CAMPO QUE NINGUÉM QUER LEMBRAR
Existe uma expressão que me parece a mais honesta para definir Neymar hoje: um ex-atleta em atividade. O corpo ainda entra em campo. O nome ainda aparece nas súmulas. Mas o atleta de alta performance, aquele que dominava jogos, que carregava seleções, que fazia adversários parecerem amadores, esse foi embora há alguns anos e não voltou mais.
A combinação de lesões e episódios extracampo afetou sua relação com parte da torcida e com a imprensa. Durante anos, Neymar virou assunto nacional mesmo fora dos gramados. Lesões, polêmicas, festas e vida pessoal frequentemente ocupavam tanto espaço quanto seu futebol. 
E esse é o ponto que a euforia de ontem faz questão de varrer para debaixo do tapete: o extracampo de Neymar nunca foi paralelo à carreira dele. Ele sempre invadiu as quatro linhas. Cada festa fora de hora, cada polêmica de madrugada, cada lesão agravada por falta de disciplina física, tudo isso teve preço dentro de campo. Não é moralismo. É fisiologia e é história.
O BRASIL MERECE PERGUNTAR
Neymar pode jogar bem na Copa. Pode surpreender. Pode ser o instrumento da redenção que o Brasil espera há anos sem o hexacampeonato. Torço para isso. De verdade.
Mas a convocação de ontem não foi sobre futebol. Foi sobre dinheiro, audiência, contratos de patrocínio e a velha CBF fazendo o que sempre fez melhor: transformar a camisa amarela em produto e a torcida em consumidora de um sonho cuidadosamente embalado.
O Brasil “chorou” de emoção. Os patrocinadores abriram champanhe.
Cada um no seu canto, celebrando coisas diferentes.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
Siga nas redes para continuar a conversa
Comentários