QUEM FALA PELOS BRASILEIROS EM PORTUGAL? O RACHA QUE EXPÔS A FARSA DA REPRESENTATIVIDADE
POR TIAGO HÉLCIAS

Havia um momento histórico à vista. O presidente do Brasil desembarcava em Lisboa, pisava o Palácio de Belém, sentava à mesma mesa que o presidente de Portugal, António José Seguro. Para a comunidade brasileira, mais de 500 mil pessoas espalhadas por um país que, nos últimos anos, passou de acolhedor a hostil, era a chance rara de ter voz onde importa.
O que aconteceu foi outra coisa.
A visita de Lula, em 21 de abril, que deveria ser um momento de confraternização entre as organizações que lidam com imigrantes brasileiros em Portugal, provocou um racha entre as entidades. E o racha não foi pequeno. Treze associações enviaram uma carta à Presidência da República portuguesa, à Presidência do Brasil e à Embaixada brasileira em Portugal, cobrando explicações sobre por que apenas duas representantes da Casa do Brasil de Lisboa foram convidadas para o almoço com Lula e Seguro, no Palácio de Belém.

A pergunta, no fundo, não era sobre o almoço. Era sobre poder. Sobre quem fala em nome de quem. Sobre quem ocupa o espaço e não abre a porta para mais ninguém.
Para as associações signatárias, “a Casa do Brasil de Lisboa, que merece respeito em sua atuação, não obteve mandato para representar as outras associações ou a comunidade brasileira em Portugal”. E reiteraram que “qualquer canal de diálogo com o Governo brasileiro deve contemplar as demandas de brasileiros residentes em todo o território português, incluindo Porto, Coimbra, Algarve, Braga e outras regiões”.
Dito de forma mais direta: a Casa do Brasil de Lisboa apareceu como porta-voz de todos sem ter sido autorizada a isso por ninguém.
O problema, segundo as associações reclamantes, foi que a Casa do Brasil de Lisboa “não consultou, em nenhum momento, as restantes organizações brasileiras em Portugal sobre esta agenda”. Simplesmente foi. Ocupou o espaço. E depois contou para a imprensa o que havia dito lá dentro, como se carregasse o peso de toda uma comunidade nas costas.
Isso tem nome: autopromoção institucional
É o velho vício das lideranças comunitárias que constroem visibilidade pública sobre a dor alheia, que usam a vulnerabilidade do outro para firmar agenda própria, que aparecem nos momentos de holofote e somem quando o trabalho é duro, silencioso e sem câmera.
Não estou dizendo que a Casa do Brasil de Lisboa não faz trabalho real. A carta que a entidade enviou a Lula dias antes da visita tocou em pontos urgentes: o endurecimento das leis migratórias em Portugal, a extensão do prazo de detenção de imigrantes de 60 para até 360 dias, e a escalada da xenofobia contra brasileiros. Isso é legítimo. Isso é necessário. Mas representar uma comunidade sem o consentimento dela não é liderança. É sequestro de pauta.
E o resultado foi o pior possível: Lula deixou de fora, em sua única fala pública durante a agenda em Lisboa, justamente o tema que os brasileiros mais esperavam, as dificuldades com imigração e a burocracia da AIMA. A comunidade ficou sem a voz que deveria ter e ainda assistiu ao espetáculo das entidades brigando entre si pelo protagonismo de quem havia levado a pauta que, afinal, ninguém levou de verdade.
O episódio expõe uma ferida antiga e recorrente no associativismo brasileiro em Portugal: a fragmentação usada como instrumento de poder, não como expressão de pluralidade. São dezenas de coletivos, comitês, casas, frentes e institutos, associações, cada um com seu pedaço de bandeira, cada um disputando financiamento, visibilidade e acesso. E quando chega a hora de somar forças por algo que realmente importa, o que aparece é a disputa pelo lugar à mesa.
Vivo em Portugal há quatro anos. Vejo essa dinâmica de perto. Conheço brasileiros que chegaram aqui sem documento, sem rede e sem dinheiro e que nunca foram alcançados por nenhuma ou por boa parte dessas entidades. Conheço outros que procuraram ajuda e encontraram formulários, burocracia interna e lideranças mais preocupadas com o próprio ego e Instagram do que com a situação real de quem precisava de apoio.
Não é um problema exclusivo do Brasil, nem exclusivo da diáspora
É a doença do representativismo de fachada: a entidade existe para existir, para garantir a sobrevivência da própria entidade, não para servir quem ela alega representar.
A visita de Lula veio e foi. O presidente disse que Portugal pode ser a principal porta de acesso dos interesses empresariais brasileiros na Europa. Bonito. Útil para quem tem empresa. Para o brasileiro que está há anos esperando regularização na AIMA, para a mulher que sofre discriminação no trabalho, para o jovem que perdeu o acesso à nacionalidade com as novas leis, a visita foi mais um momento de esperança que virou frustração.
E enquanto isso, as associações brigavam pela lista de convidados do almoço.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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