O BRASIL NA LIQUIDAÇÃO: TUDO PELO PODER, NADA PELO PAÍS
POR TIAGO HÉLCIAS

Imagina que você vai a uma padaria todo dia. O dono coloca uma taxa nova no seu pão. Você reclama, ele ignora. Dois anos depois, com a padaria quase vazia e a eleição chegando, ele chega sorrindo e anuncia: “Boa notícia! Acabei com a taxa!” E ainda espera que você bata palma.
É exatamente isso que está acontecendo no Brasil agora.
O governo criou um imposto de 20% sobre aquelas comprinhas baratas que todo mundo faz pela internet, Shein, Shopee, AliExpress, sabe de qual estou falando. A famosa “taxa das blusinhas”. Criou, cobrou, arrecadou bilhões. E agora, a cinco meses da eleição, assinou um papel desfazendo tudo. Com festa, com cerimônia, com ministro parabenizando o chefe como se fosse uma conquista histórica.
A conquista foi desfazer o que eles mesmos fizeram.
O negócio rendeu bem enquanto durou
Só para você ter ideia do tamanho da conta: esse imposto rendeu R$ 5 bilhões em 2025. Cinco bilhões de reais tirados do bolso de quem compra produto barato na internet, que convenhamos, não é exatamente a elite brasileira. É a classe média baixa, é quem não tem dinheiro para comprar no shopping, é quem encontrou nas plataformas asiáticas uma forma de vestir a família sem passar fome no fim do mês.
Esse dinheiro todo foi arrecadado. Foi para os cofres do governo. E agora, na véspera de pedir voto, o presidente resolve ser generoso com o dinheiro que já entrou.
Enquanto isso, a conta não fecha
Aqui mora um detalhe que o governo não gosta de mencionar: o Brasil já está no vermelho. As contas públicas estão no déficit antes mesmo dessa decisão. Zerar esse imposto vai custar bilhões nos próximos anos, dinheiro que vai faltar em algum lugar. Em escola, em hospital, em infraestrutura. Mas isso é problema para depois de outubro.
Por enquanto, o que importa é a manchete boa.
O emprego que ninguém quis lembrar
Tem gente que vai sair perdendo com isso e que não foi convidada para a cerimônia no Palácio. São os trabalhadores das fábricas e comércios brasileiros que disputam mercado com esses produtos importados. Estudos indicam que esse imposto ajudou a preservar mais de cem mil empregos no país. Trabalhadores de verdade, com carteira assinada, que agora vão enfrentar uma concorrência ainda mais desleal.
Mas esses votos são mais difíceis de contabilizar do que a popularidade de uma blusinha barata.
O medo que explica tudo
Por que tanta pressa? Porque as pesquisas estão dando medo. O presidente que governou o Brasil por décadas, que se reelegeu em 2022 numa disputa histórica, está hoje empatado nas pesquisas com o filho de seu maior adversário. Empatado. Em São Paulo, está perdendo. No Sudeste, está perdendo.
Um presidente que se sente confortável no poder não age assim. Não assina medida às pressas, à noite, sem discurso, fora da agenda, sem deixar câmera chegar perto. Quem age assim é quem está com medo.
E medo, na política, é o combustível mais perigoso que existe. Porque quando o poder está em jogo, a coerência vai embora. O planejamento vai embora. O que fica é o vale-tudo.
O recado para o eleitor
Eu escrevo isso daqui de Portugal, observando o Brasil de longe, e às vezes a distância ajuda a enxergar melhor. O que eu vejo não é um governo celebrando uma conquista. É um governo tentando apagar o rastro do que fez antes que o eleitor se lembre.
A blusinha ficou mais barata. Tudo bem. Mas a conta desse presente vai aparecer depois, em algum imposto que vai subir, em algum serviço que vai piorar, em algum corte que vai aparecer no lugar errado e na hora errada.
No Brasil de 2026, vale tudo para não perder o poder. A pergunta que fica para você, que vai votar em outubro, é simples: você quer eleger um governo que governa pensando no país ou um governo que governa pensando na próxima eleição?
A resposta está na blusinha.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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