MACEIÓ NA VITRINE EM PORTUGAL. ARACAJU, QUANDO É A SUA VEZ?

POR TIAGO HÉLCIAS 

Estava caminhando por Lisboa numa tarde comum quando parei na vitrine de uma agência de viagens. Não é raro ver o Brasil anunciado por aqui,  os portugueses têm uma relação antiga e afetiva com o país, alimentada por laços de sangue, língua e saudade. Mas o que me parou não foi o Brasil genérico de Cristo Redentor e Carnaval. Foi Maceió. Com preço em euros. Com data de saída de Lisboa. Com sete noites incluídas.

Fiz a foto quase por reflexo.


Vivo em Portugal há quase cinco anos. Aprendi a ler o país nas entrelinhas, nas conversas de café, nas filas do supermercado, no que as pessoas comentam quando voltam de férias. E nos últimos dois verões, algo mudou no que os portugueses falam quando falam de praia. O Brasil entrou na conversa de um jeito diferente. Não como destino dos sonhos distante e caro. Como opção real. Como plano concreto para julho ou agosto.

Maceió aparece nessa conversa com uma frequência que me surpreende. E não é à toa.

€1.279. O preço que muda tudo

Esse valor, exposto ali na vitrine, é o que separa o desejo da decisão. Para um casal português de classe média, viajar para a Grécia ou para o Algarve no verão pode sair mais caro do que ir a Maceió. Com sol garantido, praia de água morna, gastronomia farta e um câmbio ainda favorável. O cálculo começa a fazer sentido.

Só no réveillon de 2025/2026, cerca de 600 turistas portugueses desembarcaram em Maceió, tornando-a o destino brasileiro preferido dos europeus naquele período.  Quando li esse número, não me surpreendi. Já tinha ouvido nas ruas.

O que viabilizou esse fluxo foi conectividade: para a temporada 25/26, estão confirmadas operações internacionais diretas com Lisboa e Porto, além de rotas com Buenos Aires e Montevidéu.  Voo direto muda tudo. O português não quer escala em São Paulo para chegar a Maceió. Com conexão direta, o destino deixa de ser trabalhoso e passa a ser conveniente.

Eu me lembro de 2022, quando cheguei aqui, e via campanhas publicitárias de Maceió nas agências, mas ainda tímidas, quase como um teste. O que existe hoje é outra coisa. É presença consolidada. É nome que os operadores turísticos portugueses já conhecem, já vendem, já recomendam sem hesitação.


Isso não aconteceu por acaso

Em fevereiro deste ano, a Prefeitura de Maceió veio até Lisboa para participar da BTL — Bolsa de Turismo de Lisboa, uma das maiores feiras de turismo da Europa, com reuniões com operadores, companhias aéreas e investidores internacionais, em parceria com a Embratur. 

Vir a Lisboa para vender Maceió dentro de Portugal é um gesto que poucos destinos brasileiros fazem com essa regularidade e essa seriedade. O mercado europeu é exigente. O turista que sai daqui quer um destino que funcione como hub: se hospedar numa capital e fazer passeios de bate-volta com agilidade, para praias, atrações culturais, natureza.  Maceió aprendeu a se vender assim: Maragogi, Praia do Gunga, São Miguel dos Milagres, Quilombo dos Palmares, tudo acessível a partir da capital. O operador de Lisboa entende isso. E vende.

E Sergipe? Preciso perguntar

Sou Sergipano, tenho raízes em Aracaju. Conheço o potencial dessa terra, de dentro. E é exatamente por isso que a pergunta me incomoda mais do que incomodaria um observador distante.

Nas vitrines das agências de Lisboa que frequento, Aracaju não aparece. Nas conversas que ouço sobre o Brasil como destino de verão europeu, Sergipe raramente entra. E olha que o estado tem argumentos de sobra: praias no litoral sul que rivalizam com qualquer paraíso do Nordeste, os Cânions do Xingó, São Cristóvão com seu título de Patrimônio da Humanidade pela Unesco, uma gastronomia que qualquer carioca que visitou nunca esqueceu.

O problema não é o produto. Nunca foi

Em março de 2026, a Embratur, o governo do estado e o Sebrae apresentaram o Plano Brasis, Plano de Ação para Promoção Turística Internacional de Sergipe 2025–2027, com a meta de colocar o estado na prateleira das grandes operadoras internacionais.  É um passo real. Necessário. Mas enquanto o plano era apresentado ao trade local em Aracaju, as agências de viagens já estavam vendendo Maceió nos totens digitais por todo o país. 

Essa defasagem não é culpa de ninguém em particular. É o resultado acumulado de anos de subinvestimento em promoção internacional, de uma política de turismo que por muito tempo mirou o mercado interno e deixou o europeu para depois.

O que Portugal me ensina sobre isso

Viver aqui me deu um ângulo que não teria se ainda estivesse no Brasil. Vejo como os destinos se constroem na cabeça do turista europeu, devagar, por repetição, por presença constante nas feiras, nas vitrines, nas redes sociais, nas indicações boca a boca nos escritórios de Lisboa e Porto.

Maceió fez esse trabalho. Está colhendo agora.

Sergipe tem o plano. Tem os ativos. Tem o discurso certo. O que falta é urgência e a consciência de que o turista europeu não espera. Quando ele decide onde vai no verão, decide em março. Em abril já está com passagem comprada.

A vitrine onde eu vi Maceió anunciada por €1.279 tinha, ao lado, destinos da Grécia, de Marrocos, da Tailândia. O Brasil disputa esse espaço com o mundo inteiro. Alagoas entendeu isso. Sergipe está, agora, começando a entender.

E eu, daqui, das terras lusitanas, fico na torcida e na vigilância. 


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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