DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA: EM PORTUGAL DIZEM QUE EU FALO BRASILEIRO, SERÁ?
POR TIAGO HÉLCIAS 
Estava numa cafeteria em Braga quando ouvi. Um netinho, sentado com a avó, falou alguma coisa do tipo “quando eu me lembro tal…” — do jeito que qualquer brasileiro falaria, com toda a naturalidade do mundo. A avó o interrompeu na hora: “Não é me lembro. É lembro-me. Você não é brasileiro, você é português.”
Fiquei quieto na minha cadeira. Quis intervir, juro que quis. Mas fiquei na minha. Porque aquilo não foi um fato isolado na minha vida aqui no Minho. É uma cena que se repete, com variações, há quase cinco anos. E ela diz muito mais do que parece.
Sou jornalista. Nordestino. De Aracaju, Sergipe. Não sou linguista nem professor de português. Mas trabalho com palavras desde sempre, e quando alguém trata a minha língua como se fosse uma versão inferior da dele, isso me incomoda. Me incomoda de verdade.
A filha que “falava muito brasileiro”
Pouco tempo depois daquela cena na cafeteria, uma amiga brasileira me contou uma história que ficou na minha cabeça. O pai português de uma coleguinha da filha dela foi reclamar na escola, com a professora, que a menina estava “falando muito brasileiro” em vez de falar português. A escola, para o crédito dela, respondeu que ele teria que colocar a filha numa redoma. Porque isso não existe. O português brasileiro está em todo lugar em Portugal e não é de hoje.
Quem mora aqui sabe. A música brasileira toca nos bares, nos cafés, nas festas, nas emissoras de rádio. Os artistas brasileiros, das mais variadas vertentes, fazem shows lotados em Lisboa, no Porto, em Braga. As novelas da Globo chegaram a Portugal décadas atrás e moldaram gerações. Hoje são as séries, os podcasts, os perfis no Instagram. O sotaque brasileiro está no cotidiano português queira ou não e as crianças absorvem isso naturalmente, como crianças fazem.
Braga, onde constantemente estou, é a capital do Minho. E dizem que cerca de 20% da sua população já é brasileira. Vinte por cento. Isso não é uma curiosidade estatística é uma transformação cultural em curso. É altamente perceptível nas ruas, na energia pulsante que faz a cidade crescer a cada dia. A língua que o pai queria proteger já está sendo reescrita na convivência diária, nas salas de aula, nas ruas. Não é á toa que o ex Presidente da Câmara, ou seja, o ex prefeito, apelidou a cidade de “BRAGASIL”.
Uma hora de carro e outra língua — ou será a mesma?
Há cerca de um ano, fui até Vigo. Cidade galega, na Espanha, a menos de uma hora de Braga. E foi uma experiência curiosa — divertida, até. Nas ruas, nas placas, nas conversas, o espanhol e o português se misturam de um jeito que confunde e encanta ao mesmo tempo. Lá, a rua se chama mesmo “rua” e não “calle”. As expressões transitam entre os dois idiomas sem pedir licença.
Não foi por acaso. A língua portuguesa nasceu ali, naquela região. O galego-português medieval era a língua comum de toda aquela faixa atlântica, o que hoje é o norte de Portugal e a Galícia espanhola. Foi dali que tudo partiu. O português que chegou ao Brasil no século XVI, que encontrou os povos indígenas, que se misturou com as línguas africanas trazidas na brutalidade do tráfico negreiro, que virou a língua de 215 milhões de pessoas, tudo isso tem raiz naquela região que hoje a Espanha e Portugal dividem.
Quando olho para Vigo e vejo aquela mistura viva, penso: a língua sempre foi isso. Nunca foi pura. Nunca foi de um lugar só.
Então, o que é falar português “de verdade”?
Aqui no Minho, o sotaque também é muito específico. O minhoto fala diferente do lisboeta, diferente do portuense, diferente do alentejano. Há expressões daqui que eu, depois de cinco anos, ainda processo com um segundo de atraso. E ninguém questiona a legitimidade disso, porque é o português deles, do lugar deles.
O meu também é o português do meu lugar. Com as vogais abertas do Nordeste, com o ritmo de Aracaju e de tudo que já vivi pelas mãos do bom jornalismo, na diversidade de culturas e sotaques do Brasil continental, com as marcas de tudo que formou e forma as regiões Sul, Norte, Nordeste e centro oeste. Não é errado. É meu, é nosso.
Neste 5 de maio, Dia Mundial da Língua Portuguesa, eu não quero fazer um discurso. Quero só dizer o que sinto depois de tudo isso que vivi aqui: essa língua não tem dono. Nasceu na Galícia, atravessou o Atlântico, sobreviveu a séculos de encontros violentos e extraordinários.
A avó da cafeteria estava ensinando gramática ao neto. Tudo bem. Mas “lembro-me” e “me lembro” são dois modos de falar a mesma coisa, na mesma língua.
E os dois, queiram ou não, são português.
O que essa língua ainda vai ser
Hoje, o português é falado por mais de 265 milhões de pessoas. A maior parte delas, a esmagadora maioria, está no Brasil. Em 2050, as projeções indicam que seremos quase 400 milhões de falantes. O centro de gravidade desta língua já se deslocou. Está no Atlântico Sul, não no europeu.
Isso não é uma ameaça. É uma realidade. E me pergunto, aqui do Minho, o que essa língua vai ser daqui para frente. Se vai continuar sendo disputada, quem fala certo, quem fala errado, quem fala português de verdade ou se um dia a gente vai conseguir celebrá-la pelo que ela é: uma língua plural, miscigenada, viva, que pertence a todos que a falam.
Galícia, Lisboa, Luanda, Aracaju, Maputo, Díli. O mesmo fio. Vozes diferentes. Nenhuma mais legítima que a outra, hora pois.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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