DE DENTRO PARA FORA: A APUNHALADA DA NOVA LEI DA NACIONALIDADE VISTA POR QUEM VIVE EM PORTUGAL

POR TIAGO HÉLCIAS 


Moro em Portugal há quatro anos. Vim legalmente, cumpri as regras, paguei impostos, contribuí. Achei que sabia qual era o jogo e quais eram as regras. Estava enganado.

No último domingo, 3 de maio, o novo Presidente da República António José Seguro promulgou o decreto do Parlamento que altera a Lei da Nacionalidade, aprovado por PSD, Chega, IL e CDS-PP — aumentando os prazos para que estrangeiros residentes legalmente em Portugal adquiram a nacionalidade portuguesa. Para os brasileiros e demais cidadãos de países de língua portuguesa, o prazo mínimo de residência sobe de cinco para sete anos. Para os demais estrangeiros, como britânicos e ucranianos, passa a ser de dez anos.

Sete anos. Uma palavra pequena para uma espera enorme.

Mas o que me revolta não é apenas a lei. É a forma. É a lógica torta de mudar a regra no meio do jogo, sem pedir licença a quem já estava jogando.

Promulgar reclamando é o mesmo que silenciar concordando

Seguro promulgou. Mas promulgou com um recado. Disse que gostaria de ter visto “maior consenso em torno das linhas essenciais” da lei , e que ela não deveria carregar “marcas ideológicas do momento.” 

Bonito. Sofisticado. INÚTIL!!

Porque palavras não têm força jurídica. A caneta que assina tem. E a caneta de Seguro assinou.

A lei foi aprovada por mais de dois terços dos deputados presentes. Numa democracia parlamentar, isso se chama legitimidade política. Seguro, no entanto, queria mais. Queria unanimidade. Queria que o PS, partido do qual ele próprio emergiu como figura histórica, também concordasse. Como se consenso fosse sinônimo de unanimidade. Como se maioria qualificada fosse pouco. Como se a democracia representativa só valesse quando todos os lados aplaudem ao mesmo tempo.

Há um nome para isso: confundir política com manada.


A traição que tem nome e data

Existe uma questão que os comentaristas portugueses na tv e no rádio evitam com cuidado cirúrgico: Seguro se elegeu presidente também com os votos dos imigrantes legais que têm direito de voto em Portugal. Brasileiros, cabo-verdianos, angolanos, estrangeiros que, dentro das regras então vigentes, construíram vida aqui, regularizaram sua situação e exerceram sua cidadania nas urnas.

Esses mesmos cidadãos acabaram de receber, como agradecimento, uma lei que altera retroativamente as condições sob as quais decidiram investir anos de suas vidas neste país.

Isso tem um nome: apunhalada nas costas.

Não é metáfora. É descrição.

Há quem estivesse a meses de completar o tempo mínimo exigido e que, da noite para o dia, viu esse prazo ser deslocado para um horizonte consideravelmente mais distante.

Pessoas reais. Projetos reais. Vidas reorganizadas em torno de uma data que o Estado português simplesmente moveu, como quem muda o alvo depois que a flecha já saiu do arco.

Quando o Estado viola o princípio que deveria proteger

Existe no direito um princípio basilar, ensinado no primeiro ano de qualquer faculdade de ciências jurídicas: a lei não pode retroagir para prejudicar quem já estava amparado pela norma anterior. É o princípio da segurança jurídica. É a base mínima de confiança entre o cidadão e o Estado.

Portugal viola esse princípio com elegância. Com nota à margem. Com pesar declarado e caneta firme.

O próprio Seguro assinalou “a importância de garantir que os processos pendentes não sejam efetivamente afetados pela alteração legislativa”, reconhecendo que o contrário representaria “uma indesejável quebra de confiança no Estado.” Bela consciência. Mas a lei foi promulgada. E a quebra de confiança já aconteceu, não nos processos pendentes. Aconteceu na cabeça e no coração de cada imigrante que entrou neste país acreditando que as regras valeriam enquanto estivessem jogando.

O presidente recomendou ainda que a lei não seja “objeto de sucessivas alterações, com prejuízo da segurança jurídica e, consequentemente, das pessoas.” A ironia é quase literária: ele diz isso enquanto promulga exatamente o tipo de alteração que descreve como prejudicial.

O Portugal que recebe e depois fecha a porta

Este não é um texto contra Portugal. É um texto de quem vive em Portugal, ama o país e, exatamente por isso, se recusa a aceitar que ele seja menos do que pode ser.

Portugal precisa de imigrantes. Os números demográficos dizem isso. O mercado de trabalho diz isso. O sistema de seguridade social diz isso. O imigrante não é um favor que Portugal faz ao mundo, é uma necessidade estrutural do país. E quando o Estado chama, quando promete um horizonte razoável de integração, tem a obrigação moral de não mover esse horizonte no meio do caminho.

Mudar a regra do jogo enquanto o jogo está em andamento não é soberania. É deslealdade institucionalizada.

Escrevo isso de dentro. De quem escolheu Portugal, não por desespero, mas por convicção. De quem observa o Brasil de longe, sim, mas também observa Portugal de perto, com a nitidez incômoda de quem não tem ilusões a proteger nem paroquialismos a defender.

E o que vejo é um país que, mais uma vez, sendo Portugal: cobrou integração, recebeu contribuição, e depois mudou o preço no caixa.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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