A MESMA RAIZ PODRE? CINCO ANOS EM PORTUGAL ME ENSINARAM QUE O BRASIL NÃO INVENTOU A CORRUPÇÃO, HERDOU-A

POR TIAGO HÉLCIAS 

Quando cheguei a Portugal, há quase cinco anos, trouxe comigo a bagagem típica do brasileiro que emigra: a esperança de que existe, em algum lugar do mundo, um país onde as coisas funcionam. Um país onde ninguém desvia dinheiro público com a desfaçatez de quem compra pão. Um país onde “cargo público” não é sinônimo de oportunidade privada.

Enganei-me. Não completamente, mas enganei-me o suficiente para que valha a pena contar.

Há alguns dias, uma imagem saltou as redes sociais portuguesas. Um perfil de nome: Sentinela Lusa, de claro alinhamento inequivocamente à direita, publicou uma arte com uma árvore cujas raízes subterrâneas carregavam etiquetas: favoritismo, corrupção, impunidade, nepotismo, interesses pessoais. De um lado da árvore, a bandeira portuguesa. Do outro, a brasileira. O texto dizia: “A mentalidade corrupta em Portugal e no Brasil tem origens históricas profundas e está enraizada na cultura de ambos os países.”


Meu primeiro impulso, honestamente, foi o de descartar. Conteúdo de redes sociais com bandeiras e metáforas botânicas raramente passa no filtro jornalístico. Mas desta vez resolvi não descartar. Resolvi pesquisar. E o que encontrei me incomodou, não porque a tese seja falsa, mas porque ela é parcialmente verdadeira. E verdades parciais, nas mãos erradas, são as mais perigosas.

A tese que a academia confirma e que o brasileiro médio intui

Existe uma tradição intelectual sólida no Brasil que chega à mesma conclusão que aquela imagem de redes sociais, só que com rigor acadêmico e sem bandeirinha. Sérgio Buarque de Holanda, em “Raízes do Brasil”, já havia identificado o problema no século passado: o Brasil herdou de Portugal um modelo de Estado em que a fronteira entre o público e o privado nunca foi claramente estabelecida. Raymundo Faoro, em “Os Donos do Poder”, foi mais longe: mostrou que o estamento burocrático brasileiro, essa casta de funcionários, políticos e intermediários que vive do Estado, é uma continuação direta do aparato administrativo português transplantado para os trópicos.

Não é metáfora. É história documentada.

Quando Portugal enviava governadores, magistrados e funcionários para o Brasil colonial, a Coroa sabia, e tolerava, que esses homens usariam o cargo para enriquecer. Os salários eram baixos demais para que se esperasse outra coisa. O acordo implícito era: feche os olhos às receitas da Coroa, aja com discrição mínima, e o resto é seu. Isso não é corrupção como exceção. É corrupção como sistema. Como modelo de governança.

Esse modelo atravessou a Independência, o Império, a República Velha, o Estado Novo, a ditadura militar e chegou ao século XXI sem ser desmantelado. Mudou de roupa várias vezes. Mas a estrutura ficou.

E Portugal? Portugal não escapou de si mesmo

Aqui mora o ponto que os brasileiros que emigram demoram a aceitar e que os portugueses que criticam o Brasil com condescendência preferem ignorar.

Portugal não exportou apenas a língua, o bacalhau e o saudosismo. Exportou também o modelo que, segundo os próprios académicos portugueses, moldou a corrupção ibérica por séculos. E ficou com uma cópia em casa.

Os dados são públicos e recentes. No Índice de Perceção da Corrupção da Transparência Internacional, Portugal obteve em 2024 o seu pior resultado histórico: 57 pontos numa escala de 0 a 100, caindo para a 43.ª posição entre 180 países. Em 2025, piorou ainda mais: 56 pontos, 46.ª posição. É um declínio contínuo desde 2015. Há uma década, Portugal estava na 33.ª posição com 63 pontos. Em dez anos, perdeu 13 posições.

Os fatores apontados pela Transparência Internacional Portugal são, curiosamente, os mesmos que os brasileiros reconhecem na paisagem institucional do seu próprio país: nepotismo, favoritismo político, financiamento partidário pouco transparente, conflitos de interesse não declarados por políticos, aplicação frouxíssima da lei anticorrupção.

A Operação Influencer, que envolveu suspeitas de corrupção no governo de António Costa e levou à sua demissão em 2023, foi apenas o caso mais visível de uma prática que os portugueses, quando falam em privado, sabem que existe há muito mais tempo do que os escândalos revelam.

Cinco anos de Portugal me ensinaram a reconhecer o padrão: o cunhadismo, o “desenrascanço” como virtude administrativa, o cargo público como herança de família, o concurso que já tem o nome do aprovado escrito antes de começar. Reconheci tudo isso. Porque já conhecia. Era o Brasil, mas em português europeu.

A diferença que existe e que importa não ignorar

Seria desonesto da minha parte, no entanto, pintar um quadro de equivalência absoluta. Porque os números não deixam.

O Brasil está na 94.ª posição no mesmo índice, com 34 pontos. Portugal está na 46.ª, com 56. São realidades distintas em grau, mesmo que sejam semelhantes em origem. A diferença entre elas não é de natureza, é de intensidade e de consequência social. No Brasil, a corrupção mata: desvia recursos de saúde pública, de saneamento básico, de educação em comunidades que não têm onde recorrer. Em Portugal, a corrupção empobrece, atrasa, desgasta, mas o Estado ainda funciona com alguma regularidade.

Isso não é elogio a Portugal. É apenas precisão analítica.

O que a imagem da Sentinela Lusa não diz e deveria

A imagem viraliza porque tem apelo emocional e uma tese sedutora. Mas há pelo menos duas omissões que um jornalista é obrigado a apontar.

Primeira omissão: dizer que é “cultural” é quase sempre uma forma de não responsabilizar ninguém. Se a corrupção está nas raízes da cultura ibérica, ela é de todos e portanto não é de ninguém em particular. Nenhum nome, nenhum governo, nenhuma decisão política específica. É uma tese que pode servir tanto ao reformador indignado quanto ao corrupto confortável. O corrupto confortável, aliás, adora esse argumento: “É a nossa cultura, sempre foi assim.”

Segunda omissão: a origem política do conteúdo importa. A Sentinela Lusa não publica análise histórica por vocação académica. Publica conteúdo de mobilização. Usar uma tese historicamente fundada para fins de nivelamento moral entre os dois países, como se a situação fosse equivalente, como se Portugal fosse o Brasil, serve a uma agenda. Qual? Depende do dia e do alvo político do momento.

O que fica, depois de quase cinco anos

Vim para Portugal com ilusões. Não com ilusões ingênuas, mas com a esperança de que a herança ibérica tinha sido, aqui, melhor administrada. Em parte, foi. Portugal tem imprensa mais livre, tem Ministério Público com mais independência operacional, tem uma sociedade civil que consegue derrubar governos por escândalos de corrupção, como aconteceu com António Costa.

Mas a raiz está lá. Vi-a crescer. Vi-a nos contratos públicos que “sempre ficam com os mesmos”, nas câmaras municipais onde o vereador é sobrinho do presidente, nas obras que custam três vezes mais do que deveriam e ninguém investiga a sério.

A árvore da imagem da Sentinela Lusa tem um problema: ela sugere que a solução é arrancar pela raiz. Como se fosse simples. Como se bastasse vontade política ou indignação nas redes sociais.

Não basta. A raiz tem quinhentos anos. E está funda.

O que muda não é arrancar, é construir, pacientemente, as instituições que impeçam a raiz de dar fruto. Imprensa livre. Ministério Público independente. Judiciário sem interferência política. Financiamento partidário transparente. Conflito de interesses punido de verdade.

É um programa chato, lento e sem viralidade nas redes sociais.

Mas é o único que funciona.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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