O SONHO EUROPEU QUE VIROU CATIVEIRO: BRASILEIROS SÃO AS PRINCIPAIS VÍTIMAS DE TRÁFICO HUMANO EM PORTUGAL

POR TIAGO HÉLCIAS 

Existe uma ironia cruel, quase literária, naquilo que os dados oficiais do governo português acabam de confirmar. O mesmo Brasil que foi colonizado por Portugal, que teve sua mão de obra escravizada por séculos às margens do Tejo e do Douro, agora exporta trabalhadores para serem escravizados novamente, desta vez nos campos de azeitona do Alentejo e nos quartos superlotados de Braga. A língua comum não foi suficiente para garantir dignidade. Ser brasileiro em Portugal, em 2026, significa ser o alvo preferencial das redes de tráfico humano.

O Relatório Anual do Sistema de Segurança Interna de Portugal — o RASI 2025, divulgado essa semana aqui em Portugal pelo próprio governo, é um documento burocrático que, quando lido nas entrelinhas, revela uma tragédia sistemática. Dos 191 casos de tráfico de seres humanos com amostras consideradas válidas pelas autoridades portuguesas, 125, ou seja, 65%, envolviam exploração em setores como agricultura, construção civil, restaurantes, atividades esportivas, trabalho doméstico e hotelaria.  Os brasileiros lideram as estatísticas em dois perfis distintos: 22% dos casos de exploração laboral análoga à escravidão e 63% dos casos de exploração sexual têm brasileiros como vítimas. 

Não estamos falando de anedota. Estamos falando de estrutura.

A geopolítica da vulnerabilidade

Para entender por que os brasileiros são alvos preferenciais, é preciso sair dos números e entrar na lógica. Portugal atravessa um paradoxo: o governo luso, que se aliou à extrema-direita para restringir a entrada e a permanência de imigrantes, notificou 23.134 estrangeiros em 2025 para que deixassem o país voluntariamente, um aumento de 5.080% em relação aos 444 notificados em 2024.  Ao mesmo tempo, 749 brasileiros foram impedidos de entrar no território português em 2025, representando 35% do total de estrangeiros barrados nas fronteiras do país. 

O que esses dados revelam juntos? Um Estado que fecha a porta da frente, a porta legal, regulada, documentada, mas deixa a porta dos fundos aberta para quem não tem opção. É exatamente nesse interstício que prosperam os aliciadores. O imigrante que não consegue regularizar sua situação pela via legal torna-se matéria-prima perfeita para quem vive de explorar vulnerabilidade.

As pessoas são levadas para locais de explorações agrícolas onde passam a trabalhar e a residir, dependendo totalmente da vontade dos empregadores. Com escassos recursos econômicos e em estado de vulnerabilidade, são colocadas a trabalhar geralmente em locais no interior alentejano ou na zona Oeste, com difíceis condições de acesso que dificultam a fiscalização. 

O Alentejo como palco da escravidão contemporânea

A região do Alentejo não é um detalhe geográfico nessa história, é o epicentro. A maior parte dos crimes de tráfico humano foi cometida em Faro, no Algarve; em Beja, no Alentejo; e em Setúbal, próximo a Lisboa.  O mesmo Alentejo das planícies douradas e do vinho premiado. O mesmo Alentejo que abastece as mesas dos restaurantes estrelados de Lisboa com produtos colhidos por mãos que não aparecem em nenhum cardápio.

A exploração de mão de obra precária é feita por empresas que pagam trabalhos ao dia, à hora ou por atividade, e por senhorios que alugam residências superlotadas, chegando a 15 ou 20 indivíduos por divisão, com margens de lucro de 200 a 300 por cento. 

Trezentos por cento de lucro sobre corpos humanos. Em plena União Europeia. Em pleno século XXI.

A exploração sexual: brasileiras em Braga e Coimbra

A estatística mais perturbadora do RASI, contudo, está no perfil das vítimas de exploração sexual. Das 22 vítimas de exploração sexual identificadas pelas forças policiais, 20 eram estrangeiras e 14 delas, 63% do total, eram brasileiras. Seis dessas mulheres estavam em poder de criminosos em Braga, no Norte, e outras seis em Coimbra, na região central do país. 

Braga. Coimbra. Cidades universitárias, de turismo, de cultura. Cidades onde ninguém quer enxergar o que acontece a algumas ruas de distância dos museus e das cafeterias.

O dado não é novo, mas o peso acumulado é insuportável. Portugal figura entre os países europeus com maior taxa de vítimas de tráfico por milhão de habitantes. Em 2023, o país registrou 39 vítimas por cada milhão de cidadãos, índice superior a países como Suécia, Finlândia e Áustria.  E o Brasil aparece, ano após ano, no topo da lista de nacionalidades exploradas.

O que o Brasil faz, ou deixa de fazer

Seria fácil colocar toda a responsabilidade em Portugal. Mas o problema tem duas pontas. O Brasil exporta vulnerabilidade. Ciente de que os brasileiros estão entre as principais vítimas de tráfico humano, o Consulado do Brasil em Lisboa tem feito campanhas para conscientizar homens e mulheres para os riscos de cederem a promessas fáceis de emprego no exterior.  Campanhas. Enquanto as redes de aliciamento têm escritório, telefone e roteiro.

O Estado brasileiro sabe do problema há anos. Sabe que a desigualdade estrutural, o desemprego crônico, a falta de perspectiva e o apelo simbólico de “viver na Europa” formam a combinação perfeita para que o aliciador tenha trabalho fácil. E ainda assim o combate efetivo segue sendo marginal.

Uma questão de narrativa

Há algo que precisa ser dito sem eufemismo: o Brasil colonizado continua sendo explorado. Os instrumentos mudaram. As correntes não são mais de ferro. São dívidas fabricadas, passaportes retidos, ameaças veladas, isolamento geográfico. Mas o resultado é o mesmo: corpos brasileiros servindo à acumulação de outrem, longe de casa, sem direitos, sem voz.

Em 2025, 73 pessoas de 26 nacionalidades foram abrigadas nos centros de acolhimento e proteção para vítimas de tráfico em Portugal, 30 a mais que em 2024. Dos acolhidos, 12 eram brasileiros.  Doze vidas resgatadas. Um número que soa como vitória num relatório oficial e como fracasso absoluto para qualquer um que entenda a dimensão do problema.

Portugal precisa fazer mais. O Brasil precisa exigir mais. E nós, que temos a obrigação de nomear o que existe, precisamos parar de chamar isso de “migração irregular” e começar a chamar pelo nome certo: escravidão.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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