GOVERNO FEDERAL EMPURRA INDÚSTRIAS PRO PARAGUAI E MANDA A CONTA PARA O POVO
POR TIAGO HÉLCIAS

Há uma frase que me persegue desde que li recentemente a entrevista de Liliana Aufiero, CEO da Lupo, à Folha de S.Paulo. Uma mulher de 80 anos, neta do imigrante italiano que fundou a empresa em 1921, que atravessou décadas de inflação, Planos Collor, Planos Real, quase falência nos anos 90 e que hoje, depois de mais de um século de história, precisou cruzar a fronteira para sobreviver. Ela não disse que foi pro Paraguai. Ela disse que o Brasil a empurrou.
“Os impostos estão comendo a operação de forma violenta.”
A declaração ultrapassa os limites da retórica e gera diagnóstico.
A Michelin abre o capítulo
Em dezembro de 2025, a Michelin encerrou definitivamente suas operações em Guarulhos. Trezentos e cinquenta trabalhadores dispensados. Uma fábrica que carregava no DNA a antiga Levorin, empresa familiar fundada em 1943, símbolo da indústria paulista, apagada. O motivo declarado pela multinacional francesa foi a “supercapacidade gerada por importações asiáticas baratas.” Produtos que chegam ao Brasil abaixo do custo de produção local e tornam inviável qualquer tentativa de competição.
Não é um caso isolado. A Michelin foi apenas o nome estrangeiro de uma lista que inclui brasileiríssimos.
A Gerdau grita, o governo não escuta
Em agosto de 2025, o CEO da Gerdau, Gustavo Werneck, foi enfático: a siderúrgica já havia demitido 1.500 funcionários entre janeiro e julho daquele ano, concentrados em Pindamonhangaba e Mogi das Cruzes. E ele não falou baixo. Cobrou do governo medidas de defesa comercial, denunciou a ineficácia do sistema de cotas, avisou que novos cortes viriam se nada fosse feito. “Vamos promover adequações de capacidade, porque a importação segue crescendo aqui.”
Werneck até elogiou Trump. Não porque fosse adepto, mas porque os EUA, rivais históricos do protecionismo seletivo, estavam fazendo o que o Brasil se recusa a fazer: defender sua indústria. Enquanto isso, o governo Lula permanecia oscilando entre o discurso da reindustrialização e a inação regulatória.
Uma empresa de 104 anos pede socorro do outro lado da fronteira
A Lupo não foi embora. Ela foi empurrada. Essa distinção importa, e muito.
A Lei 14.789/2023, sancionada pelo atual governo, alterou as regras de tributação sobre incentivos fiscais estaduais, aqueles que os estados concediam via ICMS para atrair e manter indústrias no interior do país. Com a mudança, o custo de operar no Brasil subiu abruptamente. Para uma empresa como a Lupo, que há décadas dependia desses incentivos para manter competitividade frente às importações, o impacto foi imediato: queda de lucratividade, ameaça ao modelo de negócios, necessidade de uma saída.
A saída foi Ciudad del Este. Trinta milhões de reais de investimento. Uma fábrica capaz de produzir 20 milhões de pares de meias por ano. Custo operacional 28% menor do que no Brasil. E o detalhe que mais incomoda: uma fábrica chinesa já estava lá, vendendo pro Brasil sem investir em marca, sem carregar o peso fiscal que a Lupo carrega. “Se ele consegue vender no Brasil sem investir em marca, e oferecer um bom produto a um custo menor, eu tenho que ter as mesmas vantagens”, disse Liliana.
O raciocínio é impecável. E é uma condenação do ambiente de negócios brasileiro.
A fila cresce. E cresceu 400% em dez anos
A Lupo não está sozinha nessa travessia da Ponte da Amizade. Em 2015, cerca de 40 indústrias brasileiras operavam no Paraguai via regime de maquila. Em 2026, já são mais de 200. Crescimento de 400% em uma década, não por entusiasmo com o Paraguai, mas por desespero com o Brasil.
Sete em cada dez maquiladoras no Paraguai são brasileiras. Sete em cada dez. Não é uma curiosidade estatística. É o retrato de um país que exporta sua própria capacidade produtiva enquanto importa desemprego.
A Lei de Maquila paraguaia é devastadoramente simples: imposto único de 1% sobre o valor final do produto exportado, isenção total na importação de insumos e maquinário, energia 50% mais barata, burocracia mínima. O “Custo Brasil”, essa expressão que virou clichê justamente porque descreve uma realidade insuportável, chega a consumir metade do resultado de uma empresa. No Paraguai, empresas reportam redução de até 40% nos custos operacionais.
Não é difícil entender por que vão embora.
O que é, afinal, o Custo Brasil?
É tentador reduzir tudo a um único vilão. Alguns dirão que é a carga tributária. Outros, a burocracia. Outros ainda, a concorrência desleal asiática. A verdade é que é tudo isso junto, num ciclo que se retroalimenta.
A Lei 14.789/2023 foi o gatilho mais recente, ao eliminar as isenções sobre incentivos fiscais estaduais e municipais, o governo federal elevou o custo de operar em regiões que dependiam exatamente dessas isenções para atrair indústria. O efeito colateral foi jogar pro Paraguai empresas que, de outra forma, estariam empregando no Nordeste, no interior paulista, em cidades que não têm outro empregador industrial de peso.
Quando a fábrica vai embora, o emprego vai junto. Quando o emprego vai, o cliente some. Quando o cliente some, o comércio local murcha, a arrecadação municipal cai, a escola precária fica ainda mais precária. É uma cadeia de empobrecimento silencioso que nenhum boletim de PIB capta com precisão.
A questão que o governo não quer responder
Eu me pergunto e pergunto a quem lê, o que significa, para um governo que se diz comprometido com o desenvolvimento industrial e a soberania produtiva, assistir a esse êxodo sem resposta efetiva.
Não estou pedindo protecionismo irresponsável. Estou pedindo o básico: coerência. Não dá para falar em reindustrialização com uma mão e, com a outra, criar legislação que eleva o custo das indústrias que ainda resistem. Não dá para denunciar a concorrência desleal asiática enquanto se recusa a adotar os mecanismos antidumping que o próprio sistema multilateral de comércio prevê e autoriza.
O Brasil não precisa ser barato. Precisa ser competitivo.
Mas competitividade não nasce do vácuo. Ela é construída ou destruída por decisões políticas que têm nomes, datas e consequências. A Lupo foi para o Paraguai em junho de 2025. A Michelin fechou Guarulhos em dezembro de 2025. A Gerdau demitiu 1.500 em oito meses.
E o Brasil? Seguiu debatendo.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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