CASO ÉRIKA HILTON: QUANDO O ACORDO SUBSTITUI O DEBATE, SOBRA SÓ O TEATRO
POR TIAGO HÉLCIAS
Esses dias recebi mais uma mensagem do Cleimar Cooper. Um velho amigo, ainda dos poucos que possuem cabeça lúcida, que não mede palavras para dizer algumas verdades e que vive me “provocando” com seus textos. Cidadão justo e com um olhar aguçado para tudo aquilo que nos cerca. Tenho orgulho de tê-lo no hall dos poucos amigos.
Na última mensagem, poucas linhas. Direto ao ponto. E o suficiente pra me tirar do lugar.
Ele tocou num nervo que eu carrego faz tempo: essa distância incômoda entre o que a gente chama de democracia e o que de fato acontece quando as câmeras se apagam e as portas se fecham. Não é uma inquietação nova, ele mesmo sabe disso, eu sei disso. Mas tem um jeito de a coisa se acumular até que alguém coloca em palavras e você não consegue mais fingir que não viu.
O rito e a realidade
Formalmente, a democracia brasileira funciona. Tem votação, tem comissão, tem discurso, tem regimento. O desenho institucional está lá, operando dentro da legalidade. Ninguém pode dizer que não existe.
Mas existe um segundo andar nessa casa, e é nele que as coisas de fato acontecem. É lá que as decisões já chegam tomadas, que os cargos já têm dono antes de qualquer debate, que as posições estratégicas são distribuídas em conversas que nenhuma ata vai registrar.
O caso da Erika Hilton é só o exemplo mais recente. Não é exceção, é o padrão. A composição de comissões em casas legislativas sempre seguiu essa lógica de acordos partidários fechados. Pode ser politicamente legítimo. Mas raramente é público. E aí começa o problema.
Quando o plenário vira palco
Eu não tenho nada contra a negociação. Política sem negociação é ilusão de estudante de ciência política no primeiro semestre. O que me incomoda é quando a negociação não antecede o debate, ela o substitui.
Quando tudo já está resolvido antes de o plenário abrir, o que se passa depois é teatro. O voto deixa de ser deliberação e vira protocolo. O discurso deixa de construir e passa a performar. E o parlamento, que deveria ser arena de ideias, se transforma num palco onde os atores já sabem o final da peça antes de entrar em cena.
A fuga do posicionamento
Tem uma característica que eu observo há anos nesse sistema e que me irrita profundamente: a aversão ao posicionamento claro.
Eu sempre disse, e repito sem cerimônia, que jornalista sem opinião não sai de casa. Não existe essa figura do repórter asséptico, equidistante de tudo, que agrade a todos e ofenda a ninguém. Isso não é isenção, é covardia intelectual.
E eu sei o que custa ter posicionamento. Paguei e continuo pagando um preço alto por confrontar quem está no poder. Não é figura de linguagem. É uma conta real, que chega de formas variadas e nem sempre anunciadas. Mas eu prefiro isso a me tornar aquilo que critico: alguém que calibra a opinião conforme o vento, que adota a agenda woke do mês, que evita o atrito com quem manda porque o conforto vale mais que a coerência.
O parlamentar brasileiro aprendeu exatamente esse jogo. Sobrevive no conforto do acordo fechado, onde o custo político se dilui, a responsabilidade se espalha e ninguém precisa responder por nada de forma direta. É uma engenharia do anonimato coletivo, sofisticada o suficiente pra passar por normalidade.
Agradar à agenda do momento, não contrariar ninguém que importe, surfar o politicamente correto da semana, isso virou estratégia de sobrevivência tanto no jornalismo quanto na política. E nos dois casos o resultado é o mesmo: um esvaziamento lento da substância, até que só sobre a forma.
O efeito no eleitor é devastador. Você não consegue identificar quem defende o quê. E quando não consegue identificar, não consegue cobrar. E quando não consegue cobrar, o sistema segue girando, protegido pela própria opacidade que criou.
Transparência como exceção
Houve avanços. O voto secreto foi reduzido em várias situações nos últimos anos. Mas a lógica da opacidade não desapareceu, ela se reinventou.
Sai o sigilo formal, entra o acordo prévio. Sai a votação escondida, entra a decisão antecipada. O resultado prático é quase o mesmo: você continua sem saber o que de fato aconteceu, e por quê.
O sistema que premia quem joga no escuro
Isso tem uma consequência que me parece subestimada: esse modelo não premia os mais preparados nem os mais coerentes. Premia os mais hábeis no jogo interno.
Quem sobe nesse ambiente é quem domina o corredor, o cochinho, o jantar discreto. Não necessariamente quem sustenta posição à luz do dia e responde por ela. É uma inversão silenciosa e ela vai deslocando o eixo da política do espaço público para o espaço privado, lentamente, sem alarme.
Democracia ou encenação
Quando o Cleimar usa a palavra “encenação”, ele está sendo duro. Mas eu entendo de onde vem o desconforto de quem lê, porque no fundo a gente reconhece que ele não está errado.
Não estamos falando de um episódio. Estamos falando de um hábito. Um modo de operar que se normalizou de tanto se repetir, até o ponto em que questionar passou a parecer ingênuo.
E é exatamente aí que mora o perigo.
Democracia não é só cumprir rito. É garantir que o que se decide corresponda ao que se apresenta. É visibilidade, responsabilidade, coerência. Quando esses elementos se perdem, o sistema até continua funcionando, mas perde a razão de existir.
O incômodo necessário
A mensagem do meu querido amigo Cleimar não resolve nada. Não era pra isso. Mas ela incomoda e em política, o incômodo ainda é o único ponto de partida honesto pra qualquer conversa real e leal.
Eu aprendi isso na prática. Não na teoria, não nos livros, na pele. Cada vez que assumi uma posição contrária ao poder estabelecido, havia uma conta esperando do outro lado. Às vezes visível, às vezes silenciosa. Mas sempre presente. E mesmo assim, eu não trocaria a coerência pelo conforto. Porque o dia em que eu começar a calibrar o que escrevo conforme quem está no poder, posso até continuar publicando, mas terei parado de fazer jornalismo.
É por isso que esse texto importa. Não porque o Cleimar ou eu tenhamos respostas definitivas. Mas porque nomear o problema em voz alta, sem eufemismo, sem recuo estratégico, já é um ato que tem custo. E que vale a pena.
Ignorar é mais fácil. Sempre é. Fingir que o bastidor é só parte do jogo, que sempre foi assim, que vai continuar sendo, isso é confortável. Mas a democracia que se contenta com o rito sem a substância não está funcionando. Está apenas sobrevivendo. E sobrevivência, sem legitimidade, tem prazo de validade.
A conta chega. Eu sei disso melhor do que gostaria.
A seguir, confira na íntegra o texto de CLEIMAR COOPER:
DEMOCRACIA DE BASTIDOR, NÃO É DEMOCRACIA
“Existe um ponto central, que está sendo convenientemente ignorado em toda essa polêmica envolvendo a deputada Érika Hilton (nome social).
As casas parlamentares, de forma quase generalizada, têm pavor de votação. Fogem dela como _o diabo foge da cruz._
A deputada, foi colocada na presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, não por mérito, debate ou escolha clara da maioria, mas por *acordos de bastidores* previamente costurados entre os partidos. E é exatamente aí que mora o problema:
A vontade da maioria, que deveria ser o pilar de qualquer parlamento sério, é simplesmente "atropelada" por um *teatro político* que tenta se vender como “articulação”, mas que, na prática, é só fuga de responsabilidade.
Hoje, muitos parlamentares não têm coragem de se posicionar publicamente. Não assumem o que pensam e não defendem suas convicções às claras... Preferem o conforto dos acordos escondidos, longe do escrutínio popular, para evitar o desgaste.
E é dessa covardia, que nasce o pior dos mecanismos: *o voto secreto*. O esconderijo perfeito para oportunistas, incompetentes e políticos sem coluna.
O resultado disso tudo, é um cenário onde cargos importantes são ocupados, não por preparo ou coerência, mas por *conveniência política*.
Um sistema que premia articulação de bastidor e pune a transparência.
Isso não é democracia, é pura encenação.”
_Cleimar Cooper_
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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