ARACAJU FAZ 171 ANOS. MAS O QUE VOCÊ TEM FEITO POR ELA?
POR TIAGO HÉLCIAS 
Hoje, 17 de março. Fundada em 1855, quando um punhado de vontade política e um engenheiro com régua na mão transformaram um arrabalde às margens do Rio Sergipe na capital de um estado, Aracaju completa 171 anos. A cidade acordou com missa, com flores no obelisco, com a música de sempre tocando nos alto-falantes da festa oficial. É o ritual. É bonito. É necessário.
Mas, desta vez, eu quero virar a pergunta.
Não “o que Aracaju tem a oferecer?”. Essa é a pergunta fácil. É a pergunta do turista, do visitante, de quem ainda acha que a cidade existe para servir e não para ser construída. A pergunta que me interessa hoje, e que deveria incomodar cada aracajuano que acorda nesta terça-feira, é outra, mais incômoda e mais honesta: o que você tem feito por ela?
UMA CIDADE QUE NOS DEU TUDO
Eu me criei aqui. Aprendi a andar nessas ruas em tabuleiro de xadrez que o engenheiro Pirro desenhou em linha reta, formando quarteirões simétricos e que a vida real, com o tempo, foi preenchendo de história, de gente, de sotaque, de cheiro de mangue e maresia. Aracaju me deu chão antes de eu saber que precisava de chão. Me deu escola, régua e compaso no jornalismo me deu praça, me deu o calor úmido de março que gruda na pele e não pede licença.
Tudo isso: A orla, o rio, as ladeiras do centro, o forró no fim de semana, o mercado municipal às seis da manhã…, é patrimônio coletivo. É nosso. E é exatamente por isso que a pergunta sobre o que fazemos por ela não é retórica. É urgente.
O ESPELHO QUE NINGUÉM QUER ENCARAR
A pressa com que a cidade foi fundada deixou erros irremediáveis que causam inundações até hoje.  Não é metáfora, é literalmente o que acontece quando chove. Mas quantos dos nossos problemas atuais também foram fabricados com pressa? Com descuido? Com a lógica de resolver o imediato e empurrar o resto para as gerações seguintes?
A calçada esburacada na sua rua: você já ligou pra ouvidoria? O vizinho que joga entulho no terreno baldio: você disse alguma coisa? O lixo que escorrega da sacola e fica no meio-fio: foi você que deixou? Esse é o ponto.
O espelho, no aniversário da cidade, é desconfortável. E precisa ser. Porque cidade não é cenário. Cidade é o resultado acumulado das escolhas que cada um de nós faz todos os dias ou deixa de fazer.
CIDADÃO NÃO É SÓ QUEM VOTA
Tem uma confusão comum que precisa ser desmontada: a de que cidadania começa e termina na urna. O voto importa e muito. Votar com consciência, pesquisar quem se está elegendo, cobrar mandato com nome e CPF, tudo isso é exercício cívico fundamental. Mas cidadania é o que acontece nos outros 364 dias do ano.
É você conhecer o seu vizinho. É participar da reunião da associação de moradores em vez de ficar reclamando no grupo de WhatsApp. É denunciar o esgoto que transborda há meses no fim da rua. É preservar a praça do bairro como se fosse a sua sala. É ensinar ao filho que lixo tem destino correto e que geralmente tem lugar certo.
Aracaju tem uma reserva extrativista urbana, a única do Brasil, a Reserva das Mangabeiras.  Isso é extraordinário. É um presente raro que a natureza nos deu e que a cidade, por algum milagre, ainda não destruiu completamente. Mas preservar esse presente não é tarefa da gestão pública sozinha. É nossa. De quem passa por ali. De quem mora perto. De quem usa e, por isso mesmo, tem responsabilidade.
O QUE VOCÊ DEIXARÁ PARA OS 200 ANOS
Daqui a 29 anos, Aracaju chega ao bicentenário. Quem vai celebrar essa data somos nós ou os nossos filhos, ou os nossos netos. E eles vão herdar exatamente aquilo que construirmos, ou que deixarmos deteriorar, a partir de hoje.
Aracaju não surgiu de forma espontânea como as demais cidades. Foi planejada especialmente para ser capital, passou à frente de municípios já estruturados.  Nasceu de uma decisão coletiva, de uma aposta no futuro. Esse espírito fundador, o de construir algo onde antes havia apenas mangue e vontade é o que precisa ser retomado. Não pelos governantes. Por nós.
Então, neste 17 de março, a pergunta que fica não é sobre o que a cidade vai oferecer. É sobre o que você vai oferecer a ela. Uma calçada limpa. Uma denúncia feita. Um voto pensado. Um filho ensinado. Uma árvore plantada. Uma história contada para não ser esquecida.
Aracaju significa, em tupi, cajueiro dos papagaios.  Uma imagem linda. Mas papagaio que só repete discurso de aniversário não constrói nada. Chegou a hora de agir com voz própria.
Feliz aniversário, Aracaju. A cidade somos nós e só nós podemos fazer por ela o que ela já fez por nós.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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