TEMPESTADE KRISTIN: ENTRE O QUE VIVI, O QUE VI E O QUE PORTUGAL INSISTE EM NÃO APRENDER
POR TIAGO HÉLCIAS

Escrevo este texto a partir do Norte de Portugal. Não estou nos concelhos que foram devastados pela Depressão Kristin, mas estou suficientemente perto para perceber que esta tempestade não foi apenas um evento meteorológico extremo registado em gráficos, relatórios e comunicados oficiais. Ela foi sentida no corpo, na rotina e na forma como o país parou para esperar que o pior passasse.
Tem sido assim: Durante dias, a chuva é constante, pesada, insistente. O vento não é apenas barulho. É impacto. Sacode janelas, vergava árvores, faz estruturas rangirem e lembrava, a cada rajada mais forte, que algo estava fora do padrão. Não houve aqui onde estou o cenário de destruição visto em Leiria, Coimbra ou Santarém. Mas há instabilidade, apreensão e a sensação clara de que basta uma mudança de trajetória para que o Norte também estivesse no centro da tragédia.
É a partir desse lugar, de quem vive o fenómeno ainda que fora do epicentro, que este texto se constrói.
O rasto de destruição que o país não pode relativizar
Nos municípios mais afetados, a Kristin deixou um cenário que dispensa adjetivos. Rajadas de vento que chegaram aos 208 km/h em Soure, estradas cortadas, linhas ferroviárias interrompidas, escolas fechadas, milhares de pessoas sem eletricidade, água e comunicações. Casas destelhadas, árvores arrancadas, estruturas públicas danificadas.






O dado mais duro, porém, está no balanço humano. Pelo menos nove mortes confirmadas. Algumas diretamente associadas à tempestade, outras a acidentes durante reparações improvisadas e um caso de intoxicação por monóxido de carbono devido ao uso de gerador. São mortes que revelam não apenas a força da natureza, mas também o grau de improviso a que muitas pessoas foram empurradas.
Leiria, Coimbra e Santarém viveram dias de verdadeiro colapso. E é preciso dizê-lo sem rodeios: a devastação ali foi real, profunda e traumática.
Quando o fenómeno não é local, mas nacional
Viver no Norte, na região do Minho, terra do vinho verde, durante a passagem da Kristin ajudou-me a perceber algo essencial. Esta não foi uma tempestade localizada que “atingiu alguns concelhos”. Foi um fenómeno de escala nacional, com impactos diferentes, é verdade, mas com um padrão comum de intensidade, duração e imprevisibilidade.
Essa perceção é importante porque desmonta uma ideia recorrente no discurso oficial: a de que se tratou de um evento circunscrito. Não foi. O país inteiro sentiu. Uns perderam telhados, casas e vidas. Outros viveram dias de instabilidade, medo e adaptação forçada. Todos nós estivemos expostos.
A normalização do risco e o erro coletivo
Talvez o que mais me impressione, olhando para tudo isso com distância crítica, seja a forma como começaram a normalizar o risco. Ventos violentos já não chocam. Chuvas intensas já fazem parte do vocabulário do inverno. Alertas meteorológicos entram e saem das notificações do célular sem provocar verdadeira mobilização.
Essa banalização do perigo ajuda a explicar por que o país continua a falhar na antecipação. O risco é anunciado, reiterado, previsto. Ainda assim, a resposta surge quase sempre depois do estrago feito.
Não se trata apenas de falha técnica. É cultural, política e institucional.
A resposta do Estado: muito depois do impacto
Só depois do caos instalado o Governo decretou a situação de calamidade para cerca de 60 municípios, alargando-a depois a mais nove e prolongando-a até 8 de fevereiro. A decisão abriu portas a mecanismos excepcionais, mas deixou uma pergunta no ar que ninguém conseguiu responder de forma convincente: por que foi preciso esperar tanto?
O pacote de apoio anunciado pode chegar aos 2,5 mil milhões de euros. Inclui ajudas de emergência, compensações às famílias das vítimas, reconstrução de infraestruturas, linhas de crédito, isenções fiscais e incentivos económicos. As Forças Armadas estiveram no terreno com meios relevantes, militares, viaturas, maquinaria pesada, comunicações por satélite e apoio logístico.
Tudo isso é importante. Mas não anula o fato de que, em momentos críticos, o tempo é tudo. E o tempo, mais uma vez, jogou contra as populações.
A crítica política e o velho jogo da responsabilidade
As críticas surgiram rapidamente. Os partidos de oposição falaram em inação inicial e falhas de coordenação. Autarcas relataram ausência de contato nas primeiras horas. Mesmo forças políticas em campos opostos concordaram num ponto essencial: o Estado reagiu, mas não se antecipou.
O Presidente da República, no apagar das luzes de seu mandato, sugeriu uma comissão técnica independente para avaliar a resposta, à semelhança do que aconteceu após os incêndios de 2017. A proposta é sensata, mas carrega um peso simbólico. Quando o país volta a precisar de comissões para explicar tragédias repetidas, algo estrutural continua por resolver.

A tempestade como palanque eleitoral
Há, porém, um elemento que atravessa tudo isto e não pode ser ignorado. Portugal está a dias de eleger o seu novo Presidente da República. No próximo domingo, 8 de fevereiro, António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista, e André Ventura, do Chega, disputam o segundo turno.
Nesse contexto, a Depressão Kristin deixou de ser apenas uma tragédia climática. Tornou-se também palco político.
Ambos os candidatos estiveram no terreno, fizeram declarações, criticaram, cobraram, prometeram. Seguro adotou um discurso mais institucional, apontando falhas e defendendo rapidez na execução das medidas. Ventura explorou o sentimento de abandono, atacou o Governo e transformou a resposta à tempestade num símbolo da sua narrativa de ruptura.


Nada disso é ilegal. Faz parte do jogo democrático. Mas é impossível ignorar o desconforto de ver sofrimento real, casas destruídas e vidas perdidas transformadas em argumento eleitoral. Cenas que o brasileiro já se acostumou. Demagogia e proselitismo político tem por todo lado e em Portugal não é diferente.
Entre liderança e oportunismo
O problema é que a linha que separa liderança de oportunismo, em momentos como este, é extremamente fina. Visitar zonas afetadas pode ser gesto de empatia. Mas também pode ser estratégia de campanha. Criticar falhas do Estado pode ser necessário. Mas também pode servir à lógica do voto rápido.
A pergunta que fica é incômoda, mas inevitável: até que ponto as decisões, os discursos e até os silêncios foram condicionados pela proximidade das urnas?
O que fica depois da tempestade
A Kristin não é um ponto fora da curva. É parte de um padrão que tende a agravar-se. As alterações climáticas não esperam por calendários eleitorais, nem por consensos políticos.
Viver isto, mesmo fora do epicentro, muda a forma como se olha para o país. Dá a dimensão exata da fragilidade, da improvisação recorrente e da urgência de um Estado que saiba antecipar, coordenar e proteger.
Quando a próxima tempestade chegar, e ela vai chegar, há previsões para isso, Portugal terá aprendido algo ou voltará a repetir o ritual de sempre?
É essa pergunta, mais do que qualquer relatório técnico ou discurso de campanha, que continua a ecoar enquanto o vento abranda e a chuva finalmente dá tréguas.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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