RANKING DA CORRUPÇÃO: DOIS LADOS DO ATLÂNTICO, O MESMO DESGASTE NA CONFIANÇA PÚBLICA
POR TIAGO HÉLCIAS
Existe uma sensação curiosa quando se vive entre Brasil e Portugal tempo suficiente. Aos poucos, eu comecei a perceber que certas diferenças são mais de escala do que de essência. A corrupção é talvez o exemplo mais desconfortável disso. Muda o sotaque, muda o tamanho dos escândalos, muda a intensidade do debate público, mas o fenômeno continua ali, atravessando governos, instituições, o oceano atlântico e, muitas vezes, a própria cultura política.
Nesse sentido, o Índice de Percepção da Corrupção, divulgado anualmente pela Transparência Internacional, funciona quase como um termômetro desse ambiente. Ele não mede apenas crimes comprovados, mede confiança, reputação institucional, sensação coletiva de integridade. E é justamente nessa dimensão simbólica que Brasil e Portugal têm mostrado trajetórias que, curiosamente, começam a se
Portugal já foi referência. Hoje inspira alerta
No início dos anos 2000, Portugal aparecia numa posição confortável. Equivalente a 64 pontos na metodologia atual, ocupava o 23º lugar global. Era visto como um país com instituições relativamente sólidas, previsibilidade administrativa e baixo nível de corrupção percebida. Não era perfeito, claro, mas transmitia estabilidade.
Vinte e cinco anos depois, o retrato mudou. Em 2024, o país marcou 57 pontos, caindo para a 43ª posição. Em 2025, nova queda, 56 pontos e o 46º lugar entre 182 países avaliados. Pode parecer detalhe estatístico, mas não é. Ranking internacional não despenca sem motivo.
Casos judiciais envolvendo figuras políticas, investigações mediáticas frequentes, lentidão processual e uma percepção crescente de promiscuidade entre interesses públicos e privados ajudam a explicar essa erosão. Quem vive em Portugal percebe que o tema corrupção deixou de ser tabu discreto e passou a frequentar conversas cotidianas, editoriais e debates políticos com bem mais intensidade.
Não é colapso institucional. Ainda há controles fortes. Mas existe um desgaste claro na confiança.

O Brasil segue preso ao próprio labirinto
Se Portugal vive uma descida gradual, o Brasil parece caminhar num círculo. Em 2000, o país tinha pontuação equivalente a 39 pontos e ocupava a 49ª posição. Não era bom, mas estava longe do cenário atual.
Em 2024 veio o pior resultado histórico, 34 pontos e 107º lugar. Em 2025 houve leve subida para 35 pontos, mas a posição permaneceu a mesma. Ou seja, uma melhora quase simbólica, incapaz de alterar a percepção geral.
O Brasil virou especialista em produzir escândalos gigantescos, operações policiais cinematográficas, discursos inflamados contra a corrupção. Só não conseguiu ainda transformar tudo isso em confiança institucional duradoura. Há combate, há exposição, há debate público intenso. Mas estabilidade normativa e previsibilidade política continuam frágeis.
Existe também um elemento cultural difícil de ignorar. Durante décadas, naturalizou-se a ideia de que corrupção faz parte do sistema. Combate-se o adversário, relativiza-se o aliado. Isso corrói credibilidade mais rápido do que qualquer escândalo isolado. O mais recente, o do Banco Master, não me deixa mentir.
O mito do “jeitinho” exclusivo do Brasil
Vivendo aqui há alguns anos, uma constatação fica cada vez mais evidente. A ideia de que o jeitinho é monopólio brasileiro não se sustenta. O que existe, na prática, são formas locais de flexibilizar regras, atalhos administrativos, relações de proximidade que às vezes atravessam a fronteira entre conveniência e irregularidade.
Portugal também convive com pequenas transgressões cotidianas e, vez ou outra, grandes escândalos políticos e financeiros. A diferença principal talvez esteja no volume e na visibilidade. No Brasil, muitas vezes a corrupção parece sistêmica, quase institucionalizada ao longo de certos períodos históricos. Em Portugal, ela surge mais como desgaste progressivo da confiança.
Mas negar sua existência aqui seria ingenuidade. E os próprios números do índice internacional mostram isso.
Dois países ligados por mais do que história
Portugal e Brasil mantêm uma relação histórica óbvia, iniciada lá atrás com a colonização, mas que continua hoje em fluxos migratórios, negócios, intercâmbio cultural e político. Essa proximidade acaba refletindo também práticas administrativas, modelos institucionais e até vícios políticos.
Nos últimos anos, é impossível ignorar certa convergência. Portugal enfrenta questionamentos mais duros sobre transparência e governança. O Brasil, apesar de ainda mal posicionado, consolidou instrumentos de investigação, compliance e controle que antes eram mais frágeis. Não resolveu o problema, longe disso, mas mudou a dinâmica.
Há quem diga que Portugal está descobrindo dores antigas brasileiras. E que o Brasil, lentamente, tenta aprender mecanismos institucionais europeus. A verdade provavelmente está no meio.
O mundo também não está imune
Um dado muitas vezes esquecido nesse debate é a média global do índice, hoje em torno de 42 pontos. Isso significa que a maior parte do planeta ainda convive com níveis relevantes de percepção de corrupção.
Países como Dinamarca, Finlândia, Nova Zelândia ou Singapura aparecem sempre no topo porque mantêm décadas de estabilidade institucional, regras claras e baixa tolerância social a desvios. Não é genética cultural. É construção política contínua.
E isso exige algo que tanto Brasil quanto Portugal ainda buscam em graus diferentes: previsibilidade.
No fim, tudo se resume a confiança
Corrupção não é só dinheiro desviado. É capital simbólico perdido. Quando a população deixa de confiar em governos, tribunais, parlamentos e até na imprensa, a democracia enfraquece silenciosamente.
Portugal ainda tem reservas institucionais importantes, mas já sente sinais de desgaste. O Brasil tem instrumentos robustos de investigação, mas ainda luta para transformar isso em credibilidade estável.
Para quem observa os dois países de perto, a conclusão é inevitável. Não existe sociedade imune à corrupção. Existe sociedade que decide enfrentá-la de forma consistente e sociedade que aprende a conviver com ela.
E essa escolha, no fim das contas, nunca é apenas dos políticos. É sempre coletiva, é sua, é minha, é nossa.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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