ÉTICA DE PALANQUE: A FARSA DA INDEPENDÊNCIA DE ALESSANDRO VIEIRA E O TABULEIRO QUE JÁ ESTÁ SENDO REMONTADO PARA 2026
POR TIAGO HÉLCIAS

A narrativa de que Alessandro Vieira seria um “paladino da gratidão” não resiste a cinco minutos de leitura de bastidores. O vídeo gravado tão logo soube da decisão de Fábio Mitidieri, aquele tom manso, sem citar o desafeto, cheio de nobreza ensaiada, é exatamente o que parece: uma manobra de sobrevivência embrulhada em papel de princípio.
O que se vê não é grandeza. É pânico disfarçado de generosidade.
Porque “currículo limpo” não substitui estrutura de urna. No interior de Sergipe, moralidade performática não paga gasolina, não sustenta base e não compensa ausência de capilaridade política. Isso Alessandro descobriu da pior forma: na prática.
A granada que voltou para a mão de quem jogou
A crise não foi criada por André Moura. Foi detonada pela intemperança boquirrota do próprio senador.
Quando disparou a comparação do “despertador” versus “polícia à porta”, Alessandro não atacou apenas a honra de André. Desautorizou a liderança de Fábio Mitidieri, que havia selado a unidade do grupo em dezembro e assumido o custo político daquela composição. Colocou a faca no pescoço do governador: exigiu que ele escolhesse entre a narrativa moral do senador e a estrutura política necessária para enfrentar uma reeleição que tende a ser dura.
O tiro saiu pela culatra. Ao tentar enquadrar o governador, Alessandro acabou se enquadrando sozinho.
E um parêntese que vale registro: tratar a oposição como “morta” é erro crasso. Campanha se perde por soberba, não por falta de discurso.
A incoerência que ninguém quer nomear
A reação do senador — ensaiando uma saída “independente”, é o exemplo acabado de contradição estratégica.
Se considera André Moura indigno de palanque por questões éticas, como pode permanecer apoiando o mesmo projeto que tem esse aliado como pilar central? A equação não fecha. Foi expulso pela janela e se recusa a devolver a chave da porta dos fundos.
Porque o que Alessandro preserva nesse movimento não é princípio. É acesso. É o telefone que ainda é atendido. É a ponte com prefeitos, lideranças e estrutura territorial que ele simplesmente não tem por conta própria. Sem isso, o risco é virar apenas mais um senador vocal na internet e irrelevante na mesa de negociação. Um cadáver político em Brasília, ainda que com mandato.
O que Fábio escolheu, e por quê
Mitidieri não escolheu entre bem e mal. Escolheu entre fantasia e realidade.
Alessandro opera por narrativa e engajamento. Funciona bem no Instagram, conversa com eleitorado urbano, especialmente na capital. André Moura, goste-se ou não, opera por aritmética: entrega volume, articulação e lastro político. É oxigênio para o projeto do governo, numa simbiose que interessa aos dois lados.
Fábio fez o que governadores fazem quando querem sobreviver: aplicou pragmatismo, reduziu risco e trocou um aliado que gera crises por um aliado que sustenta o plano.
Não é bonito. É real.
O bônus da pureza, o ônus do governismo
Alessandro tenta reembalar a própria queda como gratidão. Tenta convencer que ficou por caráter, por reconhecimento institucional, por visão de longo prazo.
Mas tropeçou numa regra elementar da política real: moralidade sem estrutura é sentença de isolamento. Seu gesto “orgânico” é, na verdade, o reconhecimento de que ele precisa do projeto de Fábio Mitidieri muito mais do que o projeto precisa dele.
É a dança clássica do político que quer o bônus da pureza e o ônus, confortável, do governismo.
Se isso é caráter, então a política mudou de nome e esqueceram de avisar.
O vazio e o que virá para preenchê-lo
O lugar vazio numa chapa majoritária não fica vazio por acidente e não fica vazio por muito tempo.
E quando o nome de Rogério Carvalho começa a circular com a gravidade de quem já foi testado em outras disputas, o debate muda de natureza. Não é mais questão de moral ou de harmonia. É questão de aritmética pesada.
Rogério não chega de mãos abanando.
Chega com partido estruturado, com tempo de televisão que faz diferença no interior onde o sinal de internet ainda falha, com fundo eleitoral robusto e com a máquina nacional do PT, que diga-se, aprendeu a vencer eleições mesmo quando o eleitor não gosta de admitir que votou.
Se essa costura avançar, o tabuleiro sergipano de 2026 não será apenas reconfigurado. Será outro tabuleiro. Com outras peças, outras tensões, outras fidelidades inconfessáveis.
O que está por baixo de tudo isso
No fundo, e é no fundo que a verdade política sempre mora, essa crise não é sobre despertador.
Não é sobre ética versus pragmatismo. É sobre quem controla o próximo ciclo de poder em Sergipe.
É sobre governabilidade como moeda de troca. É sobre qual grupo vai segurar as alavancas institucionais depois de 2026.
É sobre quem vai indicar secretário, quem vai liberar emenda, quem vai ter o telefone atendido quando ligar para Brasília.
A ética aparece no discurso porque o eleitor, ainda bem, ainda se importa com ela.
O pragmatismo aparece nas decisões porque os operadores do poder, infelizmente, se importam com outra coisa.
E o eleitor sergipano está no meio disso, às vezes personagem da história, quase sempre plateia.
O molho ferve. Os ingredientes mudam. Mas a receita, em Sergipe como no Brasil inteiro, segue sendo a mesma desde que política é política:
Poder não é cedido.
É negociado.
Sempre.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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