ENQUANTO IDIOTAS BRIGAM PELO POLÍTICO DE ESTIMAÇÃO, DIREITA E ESQUERDA SE UNEM PARA AUMENTAR SUA CONTA
POR TIAGO HÉLCIAS
Há algo de profundamente ensaiado na política brasileira. Não se trata do debate democrático legítimo, que é saudável e necessário, mas de uma encenação recorrente. A direita sobe o tom, a esquerda responde na mesma frequência, o público escolhe lados como se estivesse numa final de campeonato. Enquanto isso, decisões que realmente mexem com o bolso do país passam longe do barulho, quase sempre protegidas por acordos silenciosos.
Nesta semana, esse roteiro voltou a se repetir com precisão cirúrgica. A Câmara dos Deputados aprovou a criação de mais de 17,5 mil cargos públicos acompanhados de reajustes salariais relevantes. Impacto inicial estimado em cerca de R$ 4,3 bilhões já em 2026, com projeções que podem ultrapassar R$ 11 bilhões até 2028. E não houve batalha ideológica televisionada. A votação foi simbólica. Sem registro nominal, sem exposição individual, sem constrangimento político.
Quando a polarização desaparece
No discurso público, a política brasileira parece um campo minado. Tudo vira disputa moral, ideológica, quase existencial. Mas basta surgir um tema estrutural envolvendo orçamento, cargos ou benefícios institucionais para a tensão evaporar. Governo e oposição frequentemente convergem com uma eficiência que raramente se vê quando o assunto é reforma estrutural, produtividade ou redução de privilégios.
A votação simbólica não é ilegal nem rara. Está prevista no regimento. O problema é o efeito político. Sem voto nominal, o eleitor perde a capacidade de identificar responsabilidades. Fica difícil cobrar depois. A transparência, que deveria ser regra em decisões de alto impacto fiscal, acaba diluída em acordos de bastidor.
O impacto financeiro real
R$ 4,3 bilhões não são abstração contábil. Esse valor representa pressão adicional sobre um orçamento já tensionado por despesas obrigatórias crescentes. Significa menos margem para investimento, maior dificuldade para ajuste fiscal e, potencialmente, mais carga tributária direta ou indireta no futuro.
Quando a projeção chega a algo acima de R$ 11 bilhões até 2028, entra-se numa zona estrutural. Não é gasto pontual, é despesa permanente. Uma vez criado o cargo e incorporado o reajuste, dificilmente há reversão. O Estado cresce por inércia institucional. Cortar depois costuma ser politicamente muito mais difícil do que aprovar a expansão.
Enquanto isso, setores produtivos lidam com custo elevado, burocracia persistente e infraestrutura muitas vezes insuficiente. O contraste alimenta a percepção de um país onde o ajuste raramente começa pelo topo da máquina pública.
O recado político por trás da decisão
Talvez o efeito mais profundo nem seja fiscal, mas simbólico. A mensagem implícita é clara: quando interesses corporativos entram em pauta, a polarização cede lugar ao pragmatismo político. Isso fragiliza a narrativa de confronto permanente vendida ao eleitorado e expõe uma dinâmica mais complexa, onde a autopreservação institucional frequentemente fala mais alto do que a divergência ideológica.
Esse tipo de movimento também reforça o distanciamento entre representantes e representados. A população acompanha crises econômicas, inflação, custo de vida pressionando, serviços públicos nem sempre eficientes. De repente, vê a estrutura estatal se expandindo sem grande resistência política aparente. A confiança institucional, que já não é robusta, sofre mais um desgaste.
A engrenagem que se retroalimenta
O Brasil consolidou ao longo das décadas uma cultura administrativa fortemente corporativa. Carreiras públicas organizadas, estabilidade elevada, benefícios estruturais e forte capacidade de pressão política criam um sistema que tende naturalmente à expansão. Não é fenômeno exclusivo daqui, mas aqui ganhou escala significativa.
Isso não significa demonizar o serviço público, que é essencial. O problema surge quando a lógica corporativa passa a orientar decisões fiscais sem debate amplo, sem transparência proporcional e sem avaliação rigorosa de impacto e eficiência.
O eleitor e a armadilha da torcida
Talvez o ponto mais incômodo dessa história esteja fora de Brasília. Está na forma como a sociedade consome política. Vamos lembrar que teremos mais uma grande eleição esse ano. A personalização extrema do debate transforma representantes em ídolos ou inimigos absolutos. Esse ambiente emocional reduz a capacidade crítica e facilita decisões pouco escrutinadas, o que se reflete nas urnas.
Político não é celebridade, nem salvador, nem inimigo ontológico. É agente público com mandato temporário e responsabilidade direta sobre recursos coletivos. Quando essa percepção se perde, a vigilância democrática enfraquece.
No fim, a conta sempre chega
A política brasileira continua operando com notável habilidade para manter o espetáculo ativo enquanto decisões estruturais avançam com discrição. A polarização rende audiência, mobiliza militância e mantém o debate aceso. Mas frequentemente não é onde o dinheiro público realmente muda de direção.
O desafio para quem paga a conta é simples na teoria e difícil na prática: menos devoção partidária, mais acompanhamento concreto de decisões fiscais. Porque, no silêncio das votações simbólicas, é que muitas vezes se decide o tamanho do Estado e o peso que ele terá no bolso de cada cidadão.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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