CONSÓRCIO NORDESTE NA EUROPA: OPORTUNIDADE HISTÓRICA OU MAIS UM PROJETO QUE PODE FICAR NO DISCURSO?

POR TIAGO HÉLCIAS 

Há notícias que, para quem nasceu no Nordeste brasileiro, não passam apenas pelo filtro da informação. Passam pela memória, pela vivência, pelo cheiro de mar misturado com asfalto quente das capitais e com a poeira das estradas do interior. Li daqui de Portugal sobre a movimentação do Consórcio Nordeste para reforçar a promoção turística internacional, com presença forte na BTL, a maior feira de turismo do país, e inevitavelmente voltei a lugares onde trabalhei como jornalista, de Aracaju a Salvador, de Maceió ao Recife, passando pelo Piauí e pelo Maranhão. Não é apenas pauta. É território afetivo.

Segundo reportagem do Público Brasil, o consórcio criado em 2019 reúne os nove estados nordestinos, representando mais de 57 milhões de habitantes, cerca de 27% da população brasileira e pouco mais de 14% do PIB nacional, com a proposta de integrar políticas públicas, atrair investimentos e fortalecer a presença internacional da região.

Nordeste como marca global


A ideia de vender o Nordeste como um destino integrado é, do ponto de vista estratégico, coerente. O turista estrangeiro raramente enxerga fronteiras estaduais. Ele busca experiência, clima, gastronomia, cultura e facilidade logística. Promover roteiros combinados entre estados, ampliar voos diretos e marcar presença em eventos internacionais são movimentos que podem aumentar competitividade turística e fluxo de visitantes.

Para quem acompanha isso vivendo na Europa, a percepção é clara. Existe curiosidade crescente pelo Brasil, mas falta informação organizada. Quando surge uma narrativa regional coesa, a decisão de viagem tende a ficar mais simples.

A chamada indústria sem chaminé

O turismo sempre foi apresentado como solução económica relativamente rápida para o Nordeste. Emprega muito, movimenta serviços, ativa cadeias produtivas inteiras e injeta divisas externas. Hotéis, restaurantes, transporte, eventos culturais, economia criativa e comércio local entram nesse circuito.

Mas quem conhece a região sabe que potencial turístico nunca foi o problema. O gargalo histórico sempre esteve em infraestrutura, planejamento contínuo, qualificação profissional e estabilidade de políticas públicas. Sem isso, crescimento turístico vira onda passageira.

Impactos positivos e riscos silenciosos

É inegável que mais turistas significam mais receita, visibilidade internacional e oportunidades para pequenos empreendedores. Estados nordestinos têm vocação natural para experiências culturais, ecológicas e gastronómicas que o mercado global valoriza cada vez mais.

Ao mesmo tempo, há efeitos colaterais que raramente entram no discurso oficial. Especulação imobiliária em áreas turísticas, pressão ambiental sobre litoral e património natural, empregos muitas vezes sazonais e aumento do custo de vida para moradores locais são realidades já observadas em vários destinos turísticos consolidados.

O turismo pode desenvolver, mas também pode distorcer economias locais quando não há regulação e planejamento.

A questão dos custos e da continuidade

Participar de feiras internacionais, promover campanhas externas, negociar rotas aéreas e estruturar promoção turística exige investimento público significativo. A pergunta inevitável é sobre retorno efetivo e sustentabilidade dessas ações.

No Brasil, políticas públicas muitas vezes sofrem descontinuidade a cada ciclo eleitoral. Turismo internacional exige consistência de longo prazo. Sem isso, campanhas se tornam episódicas e o efeito evapora rapidamente.

Essa talvez seja a maior prova de maturidade do Consórcio Nordeste. Transformar promoção pontual em política permanente.

O reposicionamento da imagem nordestina

Existe um elemento simbólico poderoso nesse movimento. Durante décadas, o Nordeste foi retratado nacional e internacionalmente sobretudo pela escassez, pela seca ou por indicadores sociais frágeis. Hoje tenta exportar inovação, energia renovável, gastronomia sofisticada, cultura contemporânea e potencial tecnológico.

Isso impacta autoestima regional, atração de investimentos e até fluxos migratórios. A imagem económica de um território influencia diretamente seu futuro.

Nova presidência, novos sinais políticos


Em 2026, a presidência rotativa do Consórcio Nordeste passou ao governador de Alagoas, Paulo Dantas, que assume com o discurso de continuidade e aprofundamento das ações conjuntas entre os estados, incluindo a aposta forte na promoção turística internacional e na ampliação de investimentos económicos na região. A proposta, segundo ele, é reforçar um trabalho transversal que envolve infraestrutura, cultura, energia, inovação e, sobretudo, integração regional.

Para quem conhece Alagoas de perto, e eu conheço bem, essa presidência carrega também simbolismo político. O estado ganhou projeção turística nas últimas décadas e tornou-se referência em alguns indicadores de crescimento no setor. Levar essa experiência para a coordenação regional pode ser positivo. A questão é como isso será traduzido em ações práticas e equilibradas entre os nove estados.

As perguntas que ficam

A estratégia macro é sedutora. Nordeste integrado, marca internacional forte, mais voos, mais turistas, mais investimentos. No papel, tudo parece alinhado. Mas é nas minúcias administrativas que projetos dessa magnitude se consolidam ou se perdem.

Como serão definidos os custos das campanhas internacionais. Qual o critério de divisão de investimentos entre estados com realidades económicas tão distintas. Até que ponto cada governo estadual manterá autonomia nas suas políticas próprias de turismo. Como será feita a governança dessas decisões. E, sobretudo, qual o mecanismo de transparência para que a população acompanhe resultados concretos.

Turismo não se sustenta apenas com marketing. Precisa de planejamento urbano, qualificação profissional, infraestrutura robusta e estabilidade institucional. Sem isso, vira vitrine bonita e desenvolvimento frágil.

O Nordeste tem força, identidade e potencial económico para ocupar espaço muito maior no turismo global. A iniciativa do consórcio aponta nessa direção e merece reconhecimento. Agora, o desafio real começa depois das feiras, das entrevistas e das fotografias institucionais.

Porque visitante vai e volta. Quem permanece é a população local. E é para ela que qualquer política pública precisa, inevitavelmente, fazer sentido.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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