A POLILAMININA, A PATENTE PERDIDA E O PREÇO INVISÍVEL DO DESCASO COM A CIÊNCIA

POR TIAGO HÉLCIAS 

Eu preciso te contar uma história. Não é uma história bonita. É o tipo de história que me faz sentar aqui, respirar fundo, e me perguntar que país é esse que a gente construiu ou que nos foi entregue destruído.

Uma pesquisadora. Quase trinta anos de trabalho. Uma molécula que faz paraliticos voltarem a se mover. Seis em oito pacientes recuperando movimentos. Setenta e cinco por cento de sucesso, num campo onde a literatura científica comemora quinze. E sabe o que o Brasil fez com isso?

Deixou a patente caducar por falta de dinheiro para pagar a taxa.

A Mulher que Carregou a Ciência no Próprio Bolso

A Dra. Tatiana Sampaio não é personagem de ficção científica. É professora da UFRJ. É pesquisadora de carne e osso, que passou décadas debruçada sobre uma molécula chamada polilaminina, derivada da laminina, proteína presente na placenta humana, estudando seu potencial de regenerar axônios em lesões medulares.

Os resultados foram extraordinários. Perturbadores, até. O tipo de dado que faz a comunidade científica parar e prestar atenção.

Mas o que mais me atinge nessa história não é a descoberta. É o que veio depois.

Quando o dinheiro público secou, quando as verbas foram cortadas e os compromissos internacionais deixaram de ser honrados, a patente internacional da polilaminina se perdeu. O Brasil não tinha mais recursos para pagar as taxas de manutenção. E a Dra. Tatiana? Ela chegou a pagar do próprio bolso para segurar a patente nacional. Uma cientista, bancando com dinheiro próprio aquilo que o Estado abandonou.

Me conta: isso não te revolta?

O Ano em que a “Pátria Educadora” Cortou R$ 10 Bilhões da Educação

O governo Dilma lançava com pompa o lema “Pátria Educadora”. Enquanto isso, na prática, o Ministério da Educação sofria um corte nominal de R$ 10,5 bilhões, cerca de 10% do orçamento da pasta. É dado oficial. Está nos jornais. Está nos números.

E esse corte não ficou na abstração dos gráficos. Ele chegou nas universidades. Chegou no CNPq. Chegou na CAPES. Chegou nos laboratórios. Chegou na forma de bolsas atrasadas, de projetos paralisados, de pesquisadores sem resposta do outro lado da linha.

E chegou, especificamente, na forma de uma patente internacional que o Brasil não pôde mais sustentar.

Eu não estou dizendo que foi intencional. Estou dizendo algo pior: foi descuido. Foi a ausência de uma política de Estado que entendesse que ciência não é gasto,  é investimento estratégico. É soberania.

O que Significa Perder uma Patente

Deixa eu ser direto contigo.

Quando o Brasil perde a patente internacional de uma descoberta científica, ele perde o direito de decidir sozinho o que fazer com ela. Perde poder de negociação. Perde receita futura. Perde a capacidade de ditar os termos de um tratamento que nasceu aqui, em solo brasileiro, com dinheiro público.

Outro país, outra empresa, outro laboratório pode, a partir de agora, desenvolver algo baseado nessa tecnologia sem dever nada ao Brasil. Sem dever nada à pesquisadora. Sem dever nada aos pacientes que passaram pelos testes experimentais.

É como plantar uma árvore durante décadas, cuidar dela, regá-la e no dia da colheita, outro chegar e levar os frutos.

A Boa Notícia Existe. Mas Ela Não Apaga a Vergonha.

Em janeiro último, a Anvisa autorizou o início da Fase 1 dos estudos clínicos em humanos, numa parceria entre a UFRJ e o laboratório Cristália. A pesquisa avança. A polilaminina segue sendo estudada. Isso é real e é bom.

Mas a patente internacional já se foi.

E a pergunta que fica é simples, cruel e necessária: o que mais já perdemos? Que outras Tatianas existem por aí, sustentando com unhas e dentes descobertas que o Estado deveria proteger e não protege?

O que Eu Quero que Você Carregue Dessa História

Não estou aqui para fazer militância cega nem para absolver ninguém. Estou aqui para dizer que existem escolhas que têm consequências reais, mensuráveis, irreversíveis.

Cortar ciência não é uma medida técnica neutra. É uma decisão política com custo humano. É um paralítico que talvez espere mais anos por um tratamento que poderia ter chegado antes. É um país que abre mão da própria inteligência.

E enquanto isso, alguém em algum lugar do mundo registra a próxima versão da nossa descoberta, com o nome deles na patente.

Isso me indigna. E deveria te indignar também.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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