UE–MERCOSUL: O ACORDO QUE PROMETE PROGRESSO, MAS LEVA O CAMPO EUROPEU À GUERRA

POR TIAGO HÉLCIAS 


Não é um debate distante, técnico ou restrito a gabinetes em Bruxelas. O acordo entre a União Europeia e o Mercosul já foi aprovado politicamente na semana passada, e suas consequências começaram a ser sentidas quase de imediato no cotidiano europeu — e não de forma positiva. Quem vive em Portugal, como eu, percebe rapidamente que o clima mudou. Estradas bloqueadas, tratores atravessados em vias estratégicas, caminhões parados por quilômetros, cadeias logísticas comprometidas e um nível de irritação social que não se via há algum tempo.

Não é apenas transtorno. É reação. É resposta. É protesto.

E, sobretudo, é um recado claro de quem se sente colocado contra a parede.

O acordo, que até poucas semanas atrás era tratado como praticamente consensual e pronto para ser celebrado, foi aprovado sem unanimidade, sob forte pressão política e com votos contrários relevantes — especialmente da França, além de resistências explícitas em outros países. O que se tentou vender como um avanço histórico acabou aprovado num ambiente de divisão, desconforto e tensão.

O campo europeu deixou de aceitar o papel de figurante

Há um esforço deliberado — e intelectualmente desonesto — para enquadrar os protestos como resistência ao progresso ou como simples corporativismo rural. Isso não se sustenta na realidade. O que se vê nas ruas, estradas e portos da Europa é o medo concreto da inviabilização econômica.

Pequenos e médios produtores europeus operam hoje sob regras ambientais rigorosas, custos elevados, fiscalização permanente e margens cada vez mais estreitas. Com o acordo aprovado, eles enxergam uma concorrência direta com produtos de fora do bloco, produzidos sob padrões diferentes, com custos menores e escala muito superior. Para o agricultor europeu médio, isso não é debate ideológico — é aritmética básica. E a conta não fecha.



França disse “não” — e isso não foi simbólico

A posição francesa foi central e não ocorreu por acaso. A França não apenas votou contra o acordo como explicitou que o texto, da forma como foi aprovado, não protege adequadamente seu setor agrícola. O campo francês tem peso político real, histórico e eleitoral. Ignorá-lo é abrir espaço para crises internas e radicalizações.

Nos bastidores, o recado de Paris a Bruxelas foi claro: o acordo passou, mas não passou em branco. A França perdeu a votação, mas ganhou uma narrativa poderosa junto à sua base social — e não está sozinha. Outros países, ainda que não tenham formalizado voto contrário, sinalizaram desconforto e exigências adicionais na fase de implementação e ratificação.

Bruxelas venceu no papel; perdeu na rua

Do ponto de vista institucional, a Comissão Europeia conseguiu o que queria: avançar com um acordo considerado estratégico para reposicionar a UE no comércio global, reduzir dependências externas e fortalecer sua presença geopolítica frente a Estados Unidos e China.

Mas há um problema central: Bruxelas fala em mercado; o campo fala em sobrevivência.

O discurso técnico sobre PIB, exportações e blocos econômicos não dialoga com quem vive da terra. Para o agricultor, o que importa é o preço pago na origem, o custo do fertilizante, o combustível, o crédito e a sucessão familiar. São duas línguas diferentes tentando ocupar o mesmo espaço político — e o choque era inevitável.

Sustentabilidade virou argumento — não garantia

Outro ponto sensível está na questão ambiental. O acordo aprovado menciona compromissos climáticos, Acordo de Paris e cláusulas verdes. No papel, o discurso é irrepreensível. Na prática, reina a desconfiança.

Produtores europeus já viram cláusulas ambientais serem relativizadas, flexibilizadas ou simplesmente ignoradas em outros acordos internacionais. O receio é simples: se a fiscalização falhar, quem perde não são os grandes conglomerados globais, mas o produtor local, que continua sendo cobrado com rigor dentro da UE.

O que está realmente em jogo

O que se disputa aqui vai muito além de comércio exterior. Está em jogo:

o futuro da agricultura familiar europeia;

o equilíbrio entre globalização e proteção social;

a credibilidade das instituições europeias junto às suas bases produtivas;

e o custo político de decisões tomadas mais para fora do que para dentro.

A aprovação do acordo deixou claro que a União Europeia optou por uma estratégia global mesmo sabendo que isso geraria fraturas internas. O cálculo foi feito. O risco foi assumido.

Um acordo aprovado — mas longe de pacificado

Embora o acordo tenha sido aprovado politicamente na semana passada, ele ainda enfrentará um longo caminho: Parlamento Europeu, ratificações nacionais e, sobretudo, a implementação prática. E é exatamente aí que os países contrários ou reticentes tendem a atuar com mais força, exigindo salvaguardas, compensações e mecanismos de proteção.


Os protestos não são o epílogo desse processo. São o prólogo.

Quem avisa amigo é

A sensação, acompanhando tudo de perto, é inequívoca: o acordo UE–Mercosul foi aprovado, mas não foi assimilado. Foi empurrado. E decisões empurradas costumam cobrar seu preço mais adiante.

As estradas bloqueadas, os tratores atravessados e os portos paralisados não são atos folclóricos. São sinais políticos claros.

Aqui, isso não soa como chantagem. Soa como alerta.

E a história é generosa em exemplos de alertas ignorados que acabaram se transformando em crises profundas — econômicas, sociais e políticas.



Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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