TORTURA, EXECUÇÕES, FOME E ÊXODO: OS NÚMEROS DA VENEZUELA QUE NENHUMA SOBERANIA CONSEGUE ESCONDER

POR TIAGO HÉLCIAS 

Há textos que eu escrevo como jornalista.

Este, eu escrevo também como cidadão — e como alguém que já não aceita fingir distância diante da desumanização travestida de discurso institucional.

Eu não consigo falar da Venezuela a partir de abstrações. Não consigo tratar essa tragédia como um debate teórico sobre soberania, autodeterminação ou “não intervenção”. Porque quando olho para os números — e eles são públicos, documentados, reiterados por organismos internacionais — o que vejo não é um Estado soberano. Vejo um povo esmagado por um projeto de poder.

E quando a realidade chega a esse ponto, a neutralidade deixa de ser virtude. Passa a ser fuga.

Os números que desmontam qualquer retórica

Não se trata de opinião. Trata-se de escala. E escala importa.

Estamos falando de mais de 36 mil vítimas de tortura e violência estatal. Pessoas submetidas a espancamentos, choques elétricos, asfixia, violência sexual, humilhação sistemática. Isso não acontece por acaso. Isso exige comando, método e autorização implícita — ou explícita — do Estado.

Estamos falando de mais de 18 mil detenções por motivação política ao longo dos últimos anos. Gente presa por discordar, por protestar, por existir fora da cartilha do regime. Muitos sem acusação formal. Muitos sem julgamento. Alguns sem sequer saber quando — ou se — sairão vivos.

Estamos falando de milhares de execuções extrajudiciais, atribuídas a forças de segurança que deveriam proteger a população. Mortes frequentemente apresentadas como “confrontos”, mas descritas por relatórios internacionais como operações de extermínio. Corpos no chão, estatísticas maquiadas, famílias sem resposta.

E estamos falando de centenas de mortos em protestos, cidadãos que foram às ruas pedir comida, eleições e dignidade — e encontraram bala, gás e repressão.

Diante disso, eu insisto: que soberania é essa que só funciona contra o próprio povo?

A fome também é uma forma de violência

A tirania não se limita às celas ou aos porões da repressão. Ela aparece, todos os dias, no prato vazio.

Hoje, cerca de 90% da população venezuelana vive na pobreza. Não é pobreza conceitual. É miséria concreta. O salário mínimo oficial, reduzido a poucos dólares por mês, não sustenta uma família, não compra alimentos básicos, não garante dignidade mínima.

Hospitais colapsaram. Escolas esvaziaram. Serviços públicos desapareceram. Profissionais qualificados foram empurrados para fora do país. Crianças passaram a depender de ajuda humanitária para comer.

O resultado lógico desse processo é o êxodo: quase 8 milhões de venezuelanos obrigados a deixar sua terra. Não por aventura. Não por ambição. Mas por sobrevivência. Ninguém abandona sua casa em massa porque quer. Faz isso porque ficar virou sentença.

O silêncio imposto como política de Estado

Nada disso se sustenta sem controle absoluto da narrativa. E o regime venezuelano entendeu isso cedo.

Centenas de veículos de comunicação foram fechados, censurados ou asfixiados financeiramente. Jornalistas passaram a ser tratados como inimigos do Estado. A verdade virou ameaça. A mentira oficial, política pública.

Como jornalista, isso me atravessa diretamente. Porque sei — por prática profissional e por história — que sem imprensa livre não existe soberania real. Existe apenas encenação institucional, fachada jurídica e autoritarismo operando sob aplausos seletivos.

A soberania como mentira conveniente

É aqui que faço uma escolha consciente — e assumida.

Soberania não é mantra diplomático. Não é palavra mágica capaz de absolver governos de seus crimes. Soberania existe para proteger pessoas, não para blindar tiranos.

Um Estado que tortura, prende sem processo, executa extrajudicialmente, censura a imprensa, destrói a economia e empurra milhões para o exílio pode até manter bandeira, hino e cadeira em organismos internacionais. Mas já perdeu sua soberania moral, política e funcional.

Defender esse tipo de soberania é defender uma ficção. E eu me recuso a colaborar com essa farsa.

O método que não é exclusividade venezuelana

E é justamente por isso que olhar para a Venezuela não me soa distante. Porque o método é reconhecível. No Brasil, ele não se impôs com tanques nas ruas, mas com discurso civilizado e verniz institucional. Primeiro, a narrativa de que tudo é feito “em defesa da democracia”. Depois, a normalização de exceções permanentes, o uso seletivo das instituições, a transformação do dissenso em suspeita moral e a ideia perigosa de que certos direitos podem ser relativizados se o alvo for considerado inconveniente. A liberdade de expressão passa a ser “problema”, o devido processo vira detalhe, e o abuso ganha aplauso desde que venha do lado “certo”. Foi exatamente assim que a Venezuela deixou de perceber o ponto de retorno. Não foi num rompante autoritário explícito, mas na soma de concessões silenciosas, de silêncios cúmplices e de uma elite que preferiu chamar autoritarismo embrionário de maturidade institucional. 

A história não se repete de forma idêntica — mas ela rima. E ignorar essa rima, diante do que estamos vendo, não é prudência. É conveniência.

O que eu, como jornalista, não aceito mais

Eu não aceito chamar colapso de estabilidade.

Eu não aceito chamar repressão de governabilidade.

Eu não aceito chamar tirania de soberania.

O que aconteceu na Venezuela não é um acidente histórico. É um projeto que fracassou para o povo e funcionou para quem se manteve no poder. E continuar relativizando isso, em nome de alinhamentos ideológicos ou conforto geopolítico, é fechar os olhos para uma tragédia humana em escala histórica.

O preço da tirania não é pago em discursos.

É pago em corpos, em fome, em exílio e em silêncio forçado.

E há momentos — este é um deles — em que o jornalismo não pode apenas informar. Precisa assumir posição diante dos fatos, porque fingir neutralidade diante da barbárie documentada não é equilíbrio.

É cumplicidade.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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