QUEREM BOLSONARO MORTO — E JÁ NEM FAZEM QUESTÃO DE DISFARÇAR
POR TIAGO HÉLCIAS

Há algo de profundamente errado quando a deterioração física de um ex-presidente da República passa a ser tratada como detalhe burocrático. Há algo de perverso quando um homem com histórico médico grave, sob custódia do Estado, adoece, cai, desorienta-se — e a máquina pública responde com frieza, demora e desconfiança. E há algo de assustador quando parte do sistema parece confortável com esse roteiro.
O caso Jair Messias Bolsonaro já ultrapassou qualquer fronteira razoável de disputa política ou jurídica. O que está em jogo agora não é mais condenação, pena ou narrativa institucional. É vida. E, para muitos, a conclusão é simples, brutal e cada vez mais difícil de ignorar: não vão sossegar enquanto Bolsonaro não morrer.
Um preso de alto risco — ignorado como se não fosse
Bolsonaro não é um preso comum. Nunca foi. Não apenas por ter sido presidente, mas por carregar no próprio corpo as marcas de uma tentativa de assassinato em 2018, seguida de múltiplas cirurgias, sequelas permanentes, internações recorrentes e uso contínuo de medicação pesada.
Quando surgem episódios de queda, traumatismo craniano, tontura, lapsos de memória, crises neurológicas e suspeitas de interação medicamentosa, qualquer Estado minimamente responsável age para preservar a vida. Não discute. Não relativiza. Não posterga.
No Brasil, não. No Brasil, discute-se se é “grave o suficiente”.
Michelle Bolsonaro diz o que o sistema se recusa a ouvir
A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro foi direta, dura e emocionalmente devastadora. Chamou o que está acontecendo pelo nome que, para ela, é inescapável: tortura. Falou em negligência, atraso no socorro e risco real de morte. Não usou meias-palavras. Não pediu favores. Fez um alerta público.
E o que recebeu em troca? Silêncio institucional, decisões frias e o recado implícito de que a palavra dela não tem valor algum diante da engrenagem que já decidiu o destino do marido.
Quando a esposa de um preso grita que ele pode morrer — e o Estado reage com despachos técnicos — não estamos diante de normalidade democrática. Estamos diante de desumanização administrativa.
Alexandre de Moraes e a lógica do castigo absoluto
A figura de Alexandre de Moraes tornou-se central — e simbólica. Suas decisões, sempre firmes, sempre unilaterais, sempre impermeáveis a qualquer contestação externa, sustentam uma lógica clara: não se recua, não se flexibiliza, não se demonstra empatia.
A tentativa do Conselho Federal de Medicina de apurar a condução do caso foi sumariamente anulada. O presidente do CFM foi intimado. A mensagem é cristalina: ninguém observa, ninguém questiona, ninguém interfere.
Isso não é força institucional. É intimidação. E intimidação, quando envolve saúde e vida, tem outro nome.
Quando o mundo começa a olhar
As repercussões internacionais não são irrelevantes. Declarações e movimentos ligados ao entorno de Donald Trump — líder da direita global e aliado político de Bolsonaro — colocaram o caso no radar internacional. A narrativa de perseguição política com risco à vida começa a atravessar fronteiras.
E isso deveria preocupar o Brasil. Porque, quando um país passa a ser visto como incapaz de garantir a integridade física de um ex-chefe de Estado preso, algo muito sério está sendo corroído na sua imagem institucional.
A pergunta que o Brasil finge não ouvir
Se não basta derrotá-lo nas urnas,
se não basta torná-lo inelegível,
se não basta humilhá-lo publicamente,
se não basta prendê-lo,
se não basta isolá-lo,
o que mais falta?
Qual é o ponto de chegada dessa escalada?
A cada dia que Bolsonaro piora sob custódia, a narrativa se fortalece: querem vê-lo definhar. Querem que o desgaste físico faça o que a política não conseguiu. Querem que o tempo, a negligência e o sofrimento resolvam o “problema Bolsonaro” de forma definitiva.
Não é teoria da conspiração. É percepção social.
Talvez não exista um plano escrito. Talvez não haja uma ordem explícita. Mas a soma de decisões frias, negativas sucessivas, ausência de empatia e intolerância a qualquer fiscalização cria um ambiente onde a morte deixa de ser impensável — e passa a ser tolerável.
E isso, em qualquer sociedade que se pretenda civilizada, é o sinal de um colapso moral.
A pergunta final não é retórica. É histórica:
o Brasil vai aceitar assistir, em silêncio, à destruição física de um adversário político sob custódia do Estado?
Porque, se aceitar, estará dizendo ao mundo — e a si mesmo — que já não existem limites.
E sistemas sem limites sempre cobram um preço alto demais.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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