QUEM DÁ AS CARTAS EM SERGIPE: ANDRÉ MOURA AINDA É O CANDIDATO PREFERIDO OU JÁ VIROU FIGURANTE?

POR TIAGO HÉLCIAS 

Quem acompanha a política de Sergipe há décadas aprende a lidar com um método quase artesanal de leitura dos fatos. Não é ciência exata, é percepção acumulada. E faço questão de deixar isso claro desde o início: o que escrevo aqui são conjecturas minhas, impressões pessoais de quem observa, compara, cruza sinais e tenta decifrar movimentos. Não falo de dentro de gabinetes, nem trago verdades reveladas. Falo do lugar de quem assiste à política com binóculo, à distância, do outro lado do Atlântico, em Portugal, mas sem tirar os olhos do tabuleiro sergipano.

QUANDO O DISCURSO ERA CERTEZA

Durante boa parte de 2024 e ao longo de 2025, o governador Fábio Mitidieri repetia com segurança que André Moura era, sem rodeios, o seu candidato ao Senado. O discurso era firme, quase definitivo. André aparecia como peça integrada à chapa majoritária, parte orgânica do projeto político do governo. Não havia margem para dúvida, pelo menos no plano das declarações públicas.

A POLÍTICA NÃO RESPEITA DISCURSOS

Mas a política, como se sabe, raramente respeita discursos por muito tempo. Observando os movimentos mais recentes, tenho a impressão de que o roteiro começou a ser reescrito. Não com anúncios ruidosos ou rompimentos explícitos, mas com algo mais característico da política real: o deslocamento silencioso de protagonismo.

Os holofotes parecem cada vez mais concentrados em Alessandro Vieira. As agendas, os gestos públicos, os apoios espontâneos, explícitos, emitidos pelo entorno mais próximo do governador, a exemplo da própria primeira dama, membros da família e de auxiliares do primeiro escalão do governo, passam a girar quase exclusivamente em torno do Delegado-Senador. 

Penso que eles não agiriam assim, de forma orquestrada, sem a anuência do chefe maior.

Esse movimento não tem sido novidade, a diferença é que tem se repetido cada vez mais e com mais intensidade. Só não vê quem não quer. 

Nos bastidores, o desconforto na base de apoio de André é cristalino e o próprio já disse recentemente em coletiva de imprensa que espera que o clima não seja igual ao da última campanha majoritária, onde aliados de plantão não trocavam nenhuma palavra e nem externavam apoio e respeito. 

ANDRÉ NO DISCURSO, ALESSANDRO NA PRÁTICA

Do ponto de vista de quem observa de fora, André Moura parece viver hoje uma posição desconfortável. Não foi retirado do jogo, mas também não ocupa mais o centro dele. Continua presente no discurso, mas cada vez menos visível nos gestos.

E, na política, essa diferença costuma ser decisiva. A exclusão raramente acontece de forma abrupta. Primeiro vem o esvaziamento. Depois, a perda de prioridade. Só mais adiante é que o afastamento fica explícito.

AS PERGUNTAS QUE FICAM

A pergunta que fica, e que faço aqui como observador atento, é simples e incômoda. André Moura ainda é, de fato, o “candidato 01” do governador ou passou a ser apenas parte de um discurso que já não acompanha a prática? Sua candidatura está sólida ou começa a entrar numa zona de risco silenciosa, dessas que só ficam evidentes quando já é tarde demais?

Talvez as respostas só apareçam mais adiante. Talvez tudo isso não passe de leitura precipitada. Mas quem milita no jornalismo político há 30 anos sabe que, muitas vezes, a política avisa antes de anunciar.

QUANDO A POLÍTICA AVISA ANTES

Em Sergipe, os sinais estão postos. Será quem existe algo de podre no reino da Dinamarca? 

Será que tudo não passa de um grande jogo de cartas marcadas na tentativa de desidratar a musculatura de André Moura? 

Ou será que estou assistindo muito a série: HOUSE OF CARDS? 

Sim, porque, os últimos acontecimentos, confesso, lembram muito essa famosa série política da Netflix. Não pelos personagens caricatos ou pelos exageros da ficção, mas pela lógica fria do poder. Nela, os personagens raramente são descartados de forma abrupta. Eles são esvaziados. Mantidos por perto enquanto deixam de ser centrais. Continuam na foto, mas já não controlam o enquadramento.

Os acordos mudam, as lealdades são testadas e o silêncio passa a ser mais revelador do que qualquer pronunciamento. Quem entende a linguagem dos bastidores percebe quando alguém ainda está no jogo e quando já começou a ser preparado para a saída de cena.

Bem, cabe agora acompanhar se tudo isso, os meus “devaneios”, vão se confirmar ou se serão apenas mais um capítulo das muitas reviravoltas que fazem da política um território onde nada é definitivo até o último ato, as urnas. 


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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