QUANDO ALESSANDRO VIEIRA INOCENTA ANDRÉ MOURA E MUDA O JOGO POLÍTICO EM SERGIPE

POR TIAGO HÉLCIAS 

Não é a primeira vez que este blog se debruça sobre os bastidores da política sergipana e seus tentáculos para além das fronteiras do Estado. Tampouco é a primeira vez que o nome de André Moura aparece associado, ainda que de forma indireta, a discussões sobre poder, influência e possíveis conexões perigosas no Rio de Janeiro. Esse tema já foi tratado aqui, com profundidade, critério e responsabilidade. Virou texto. Virou vídeo. Ganhou repercussão. Circulou. Incomodou.

Confira o vídeo AQUI!!

E justamente por isso, a entrevista concedida na quinta-feira, 29/01, por Alessandro Vieira à Rádio Fan FM não pode ser lida como mais uma fala protocolar de pré-campanha. Ela dialoga diretamente com tudo o que já foi dito, investigado, questionado e exposto anteriormente. Inclusive por este espaço.

A DESCONVOCAÇÃO QUE DIZ MUITO

Quando o relator da CPI do Crime Organizado afirma que não existe previsão de convocação de André Moura e que ele não seria um alvo prioritário da comissão, há ali um gesto político que ultrapassa a formalidade técnica. Alessandro sabe o peso da própria caneta. Sabe o alcance da própria voz. E sabe, sobretudo, que fala também para quem acompanha, há anos, essa história.

Não se trata apenas de não convocar. Trata-se de dizer publicamente que, no roteiro da CPI, André não ocupa lugar central. Que não há, até aqui, elementos suficientes que justifiquem sua exposição como investigado prioritário. Para quem acompanha o tema com atenção, isso não é detalhe. É reposicionamento.

GAROTINHO, O RUÍDO E A FRONTEIRA DA PROVA

Anthony Garotinho, personagem recorrente desse enredo, aparece mais uma vez como o elemento do ruído. O delator informal. O denunciante marginal de ocasião. Alessandro reconhece que parte do que foi dito por ele apontou caminhos que se confirmaram, sobretudo no que diz respeito a deputados estaduais e esquemas de propina no Rio de Janeiro.

Mas quando o assunto é André Moura, a narrativa muda de densidade. O senador separa com cuidado o que é proximidade política do que seria crime comprovado. Admite a inserção de André no núcleo de poder do governo fluminense, algo que classifica como notório, mas afirma, sem margem para dúvida, que não houve comprovação de transferência de valores ou pagamento de propina.

Essa distinção é central. E precisa ser dita, sobretudo por quem já trouxe esse debate à tona anteriormente.

QUANDO O ACUSADOR PASSA A DELIMITAR OS FATOS

Aqui está talvez o ponto mais delicado, e mais humano, de toda a análise.

Alessandro Vieira não é um observador externo. É o relator da CPI. Mas também é um personagem político que, em outros momentos, ajudou a tensionar esse debate. Ao fazer agora uma fala pública que afasta acusações diretas contra André Moura, ele assume, consciente ou não, o papel de quem fecha um ciclo narrativo.

Para quem, como este blog, já tratou do tema com dureza, mas também com responsabilidade, esse momento exige honestidade intelectual. A política não pode ser refém eterna da suspeita quando os fatos não se sustentam. E isso não significa esquecer o passado, mas atualizá-lo à luz do que está posto.

O JOGO INTERNO E A MUDANÇA DE PROTAGONISMO

Nada disso acontece no vazio. A fala de Alessandro também revela, de forma sutil, uma mudança de eixo dentro da chapa liderada por Fábio Mitidieri. Ultimamente, verifica-se um movimento que busca tirar André Moura do centro absoluto do projeto governista, com a divisão de apoios excluindo seu nome em colégios eleitorais estratégicos.

O que dizem as más línguas é que Alessandro surge como a figura mais aceitável por deter um poder de forte atração: emendas parlamentares na casa dos milhões. Também é um nome que não produz ruído em Brasília, que não carrega desgaste acumulado e que agrada ao núcleo mais próximo – leia-se, família – do governador.

A entrevista não cria esse cenário. Ela apenas o expõe.

MEMÓRIA, RESPONSABILIDADE E LEITURA ALÉM DA NOTÍCIA

Este texto não apaga o que já foi escrito aqui. Não apaga o vídeo que teve ampla repercussão. Não reescreve a história. Ele a atualiza. Com fatos. Com contexto. Com a consciência de que fazer jornalismo político é, acima de tudo, acompanhar os movimentos do poder com coerência, mesmo quando eles desafiam narrativas anteriores.

A política muda. Os discursos se ajustam. Os protagonistas se reposicionam. E cabe a quem observa, escreve e analisa ter a coragem de dizer quando algo mudou. 


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

Siga nas redes para continuar a conversa

Acesse: https://linklist.bio/tiagohelcias



Comentários

Cleimar Cooper disse…
Irretocável e sobretudo "honesto".

Postagens mais visitadas