PORTUGUESES NO BRASIL ESCOLHEM VENTURA: O VOTO QUE REVELA UM PAÍS DIVIDIDO

POR TIAGO HÉLCIAS 

Tem algo acontecendo nestas eleições presidenciais em Portugal que não dá pra ignorar. E não estou falando do que acontece em Lisboa ou no Porto — estou falando do outro lado do Atlântico, onde milhares de portugueses votaram de um jeito que surpreendeu muita gente. Ou talvez não devesse surpreender tanto assim.

Os portugueses que vivem no Brasil escolheram André Ventura de forma avassaladora. Segundo a imprensa portuguesa, ele venceu em nove dos dez consulados portugueses no país. Não é detalhe. Não é margem de erro. É um sinal luminoso aceso no meio desta corrida presidencial.

OS NÚMEROS NÃO MENTEM

Ventura fez 48,81% dos votos entre os portugueses no Brasil. Quase metade. António José Seguro, que liderou a primeira volta em Portugal, ficou com apenas 21,90%. A exceção? Porto Alegre, onde Seguro conseguiu virar o jogo.

Fora isso, foi Ventura do norte ao sul do Brasil. Uma preferência clara, direta, sem rodeios.

Enquanto isso, em território português, o cenário era outro. Seguro à frente, eleição equilibrada, segundo turno garantido. Dois Portugais votando de formas quase opostas. E isso precisa ser entendido.

O BRASIL QUE ESSES ELEITORES RESPIRAM

Impossível separar esse voto do contexto. Os portugueses no Brasil não estão numa bolha — eles vivem num país que passou por uma montanha-russa política nos últimos anos. Polarização intensa, discurso anti-establishment, retórica inflamada. Tudo isso virou o ar que se respira por lá.

E não demorou para a direita brasileira comemorar. Eduardo Bolsonaro foi às redes sociais celebrar a vitória de Ventura entre os portugueses. Outros nomes do bolsonarismo fizeram coro. O recado estava dado: há uma sintonia, uma identificação, um vocabulário político comum que atravessa oceanos.

Não é por acaso. É afinidade ideológica mesmo.

E NOS OUTROS CANTOS DO MUNDO?

Mas o Brasil não foi caso isolado. Olhando para o panorama geral da diáspora portuguesa espalhada pelo mundo, Ventura também teve desempenhos expressivos em outros territórios — especialmente em países onde a comunidade portuguesa é mais antiga e conservadora, ou onde o ambiente político local favorece discursos de direita mais assertivos.

Em alguns países da Europa e da América do Norte, a disputa foi mais equilibrada, com Seguro conseguindo manter uma base de apoio entre emigrantes de perfil mais tradicional. Mas mesmo nesses locais, Ventura mostrou força, muitas vezes superando as expectativas e confirmando que seu apelo não se limita a uma única geografia. O voto no exterior, no geral, revelou uma diáspora mais fragmentada politicamente do que se imaginava — e mais permeável a narrativas de ruptura do que o eleitorado em Portugal continental.

O QUE ISSO DIZ SOBRE PORTUGAL?

Como brasileiro vivendo em Portugal, olho pra esse dado e vejo mais do que números. Vejo um retrato do que pode estar fervendo por baixo da superfície.

O voto da diáspora costuma ser mais passional, mais ideológico. Quem vota de longe não tá preocupado com a gestão do dia a dia — tá expressando uma visão de mundo, uma insatisfação, um desejo de mudança radical. E muitas vezes esse voto é amplificado pelo ambiente político local.

Ventura vencer tão folgado no Brasil mostra que existe uma parte do eleitorado português que quer ruptura, que não se satisfaz com o discurso tradicional, que vê no confronto uma solução. Mesmo estando a milhares de quilômetros de distância.

A DIÁSPORA NÃO DECIDE SOZINHA — MAS CONTA

Vamos ser diretos: o voto no exterior não define uma eleição presidencial em Portugal. Mas ele conta. E conta de várias formas.

Pra Ventura, esse resultado no Brasil é combustível político. É narrativa internacional, é alinhamento com movimentos conservadores globais, é munição pra segunda volta.

Pra Seguro, é um alerta vermelho piscando. Tem gente — muita gente — que não tá comprando o discurso moderado e institucional. E essa gente pode estar mais perto do que parece.

UM PAÍS DIVIDIDO DENTRO E FORA

Esta eleição tá sendo disputada em dois territórios ao mesmo tempo. E o voto da diáspora, especialmente no Brasil, escancara uma divisão que já existe em Portugal.

No segundo turno, dia 8 de fevereiro, esses votos vão ser lembrados. Não só pelos números, mas pelo que representam.

E o que representam é isso: Portugal já não é um bloco político homogêneo. Nem quando olha pra si mesmo no espelho do outro lado do mar.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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