PORTUGAL VAI ÀS URNAS: MENOS DINHEIRO, MAIS DEBATE PARA ELEGER O PRESIDENTE
POR TIAGO HÉLCIAS

No próximo 18 de janeiro de 2026, Portugal vai às urnas para escolher o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, que deixa o Palácio de Belém após dez anos de protagonismo político e institucional. Para muitos, é apenas mais uma eleição. Para mim, que já participei de campanhas políticas, que vivo de comunicação, estratégia e leitura de cenário, e que hoje moro em Portugal, trata-se de um momento especialmente revelador sobre como este país entende o poder — e como isso contrasta, de forma quase didática, com o Brasil.
Acompanhar uma eleição presidencial em Portugal é, para qualquer brasileiro acostumado ao nosso modelo, um exercício de reaprendizado político.
A PRIMEIRA GRANDE DIFERENÇA: O PRESIDENTE NÃO É O “DONO DO GOVERNO”
Quem vem do Brasil chega aqui com um reflexo automático: imaginar que o Presidente da República governa, manda, executa orçamento, nomeia ministros e define rumos económicos. Em Portugal, isso simplesmente não é assim.
O país vive sob um regime semipresidencialista, e isso muda completamente o jogo. O Presidente não governa o dia a dia. Não define políticas públicas, não gere orçamento, não comanda ministérios. Esse papel cabe ao Primeiro-Ministro, sustentado por maioria parlamentar.
Mas — e aqui está o ponto que muitos subestimam — o Presidente português detém um poder silencioso, mas decisivo: o poder de interromper o sistema.
Ao longo da minha experiência em campanhas no Brasil, sempre lidei com políticos fortes, hiperexpostos, centralizadores. Em Portugal, o Presidente atua como árbitro, como garante do funcionamento das instituições. Pode dissolver o Parlamento, pode demitir um Governo, pode convocar eleições antecipadas. Não governa, mas decide quando o país precisa ser chamado de volta às urnas.
Marcelo Rebelo de Sousa usou esse poder mais de uma vez. O próximo Presidente herdará não apenas a cadeira, mas esse mesmo botão de emergência institucional.

CAMPANHA EM PORTUGAL: MENOS DINHEIRO, MAIS POLÍTICA
Como alguém que já viveu os bastidores de campanhas eleitorais, posso afirmar sem rodeios: o modelo português é outro planeta quando comparado ao brasileiro.
Aqui não existe fundo partidário bilionário. Não há campanhas milionárias irrigadas por dinheiro público em escala industrial. Não há exércitos de marqueteiros, nem a lógica da propaganda permanente.
A campanha oficial dura 14 dias. Existe um “dia de reflexão”, no qual qualquer propaganda é proibida. O acesso à rádio e à televisão é garantido por tempos de antena gratuitos e iguais, e os debates — muitos debates — são o centro do processo.
Enquanto no Brasil se gasta bilhões e se discute pouco, em Portugal se gasta pouco e se discute muito. É um choque cultural para quem, como eu, veio de um país onde a engrenagem eleitoral virou um negócio altamente profissionalizado — e, muitas vezes, distante do eleitor comum.
Aqui, a política ainda caminha mais devagar. Para o bem e para o mal.
UM CENÁRIO FRAGMENTADO — E SEM FAVORITO ABSOLUTO
As eleições de 2026 refletem claramente o momento que Portugal atravessa: fragmentação, desgaste do sistema tradicional e crescimento de forças antissistema.
São 11 candidatos oficialmente validados. As sondagens apontam um cenário aberto, com empate técnico entre vários nomes. Não há um “já ganhou”.
De um lado, André Ventura, capitalizando o descontentamento e a retórica populista. (Chega)

Do outro, nomes mais tradicionais como António José Seguro (Partido Socialista), Luís Marques Mendes (apoiado por PSD/CDS), tentando oferecer estabilidade num sistema cada vez mais volátil. Além do Eurodeputado João Cotrim (Iniciativa Liberal)



Pelo meio, candidaturas independentes, liberais, de esquerda e até satíricas, compondo um retrato plural — e, por vezes, confuso — do país.
A exemplo de Catarina Martins (Bloco de esquerda), Manuel João Vieira (independente/artista) e do Almirante Henrique Gouveia e Melo (Independente)



Para quem analisa marketing político, o dado mais relevante é este: ninguém controla completamente a narrativa. O eleitor português está mais crítico, menos fiel, mais imprevisível.
E O BRASILEIRO NISSO TUDO?
Essa é uma pergunta que me fazem com frequência.
Sim, o brasileiro pode votar nas eleições presidenciais portuguesas. Mas não é automático. É preciso solicitar o Estatuto de Igualdade de Direitos Políticos, cumprir tempo mínimo de residência e estar regular com os direitos políticos no Brasil.
Aqui, o voto é facultativo. E isso também diz muito sobre a cultura política portuguesa: votar é um direito, não uma obrigação.
Num cenário tão equilibrado, a comunidade brasileira — hoje numerosa, ativa e cada vez mais integrada — pode ter peso real. Desde que queira participar.
O QUE ESTÁ EM JOGO, DE VERDADE
O sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa encontrará um país mais polarizado, um Parlamento menos previsível e uma sociedade sob pressão económica e social.
O desafio do próximo Presidente não será governar, mas equilibrar. Não será impor, mas mediar. Não será aparecer todos os dias, mas saber quando intervir.
Como jornalista, como alguém que já viveu campanhas por dentro e que hoje observa a política portuguesa de dentro do país, arrisco dizer: estas eleições dirão muito menos sobre quem vence — e muito mais sobre que tipo de democracia Portugal quer preservar.
E para quem escolheu viver aqui, entender isso é parte do compromisso com o país que agora também chama de casa.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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