MADURO CAI À FORÇA — E AGORA, QUEM TEM CORAGEM DE DEFENDER A DITADURA?

POR TIAGO HÉLCIAS 


Começo 2026 com um texto que não nasce do conforto das certezas absolutas. Nasce do incômodo. Porque o que aconteceu na Venezuela não é simples, não é linear e não comporta leituras fáceis — nem para quem condena regimes autoritários, nem para quem defende, de forma quase automática, os dogmas do Direito Internacional.

A captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos inaugura o ano com uma pergunta central: até onde vai a legitimidade dos meios quando o fim é o colapso de uma ditadura acusada de narcoterrorismo?

Discutir os métodos é legítimo. Fechar os olhos para o regime que caiu, não.

O fato incontornável: Maduro não era uma vítima

É preciso estabelecer um ponto de partida honesto. Nicolás Maduro não foi um presidente qualquer deposto por conveniência geopolítica. Foi o chefe de um regime que, há anos, sequestrou instituições, destruiu a economia, empurrou milhões de pessoas para o exílio e transformou o Estado venezuelano em território permeável ao crime organizado.

Não dá — e não é intelectualmente honesto — ficar ao lado de um ditador em nome de uma abstração jurídica. Ditaduras não caem por notas diplomáticas. Regimes capturados pelo narcotráfico não se dissolvem por resoluções bem-intencionadas.

Discutem-se os meios, sim. Mas não se romantiza o poder que foi desmontado.

O debate sobre os meios é legítimo — o silêncio sobre a Venezuela, não

A operação conduzida pelos Estados Unidos rompeu protocolos clássicos do sistema internacional. Isso é um fato. E precisa ser debatido com seriedade. O precedente existe, e ignorá-lo seria irresponsável.

Mas há outro silêncio igualmente grave: o silêncio histórico sobre o que se passava dentro da Venezuela.

Só quem viveu sob aquele regime — ou quem teve de fugir dele — conhece o peso real da repressão, da escassez, do medo e da humilhação cotidiana. E aqui entra um elemento que, para mim, não é teórico, é humano.

O que dizem os venezuelanos que eu conheço

Ao longo dos últimos anos, conheci muitos venezuelanos. No Brasil. E, mais recentemente, aqui em Portugal. Pessoas comuns. Trabalhadores. Famílias inteiras recomeçando do zero.

E há um dado que me marcou profundamente: todos, sem exceção, aprovam o que está acontecendo agora. Não por amor aos Estados Unidos. Não por ideologia. Mas por alívio.

Para eles, a queda de Maduro não é um debate acadêmico sobre soberania. É o possível fim de um pesadelo pessoal. É a esperança — ainda cautelosa — de que talvez seja possível voltar, reconstruir, existir sem pedir licença a um Estado criminoso.

Ignorar essa voz é tão problemático quanto ignorar o Direito Internacional.

Geopolítica não é moralidade pura — é escolha entre danos


O mundo real não opera em cenários ideais. Opera em zonas cinzentas. A ação americana pode até ser questionada, mas essencialmente genuina. Mas a pergunta incômoda permanece: qual era a alternativa concreta? Mais anos de um regime sustentado por redes criminosas, exportando instabilidade para toda a região?

Por aqui a europa reage com prudência, como sempre. Condena o regime, mas evita endossar o método. É compreensível. Especialmente para países como Portugal, que precisam proteger suas comunidades e reduzir riscos imediatos.

Mas a história raramente oferece soluções perfeitas. Ela oferece escolhas difíceis.

O que está em jogo agora

A queda de Maduro não resolve, por si só, a tragédia venezuelana. Não desmonta automaticamente estruturas criminosas, nem garante democracia. Isso ainda está por ser construído — e será um processo longo, frágil e vigiado.

Mas uma coisa é inegável: algo que parecia impossível aconteceu. Um regime que se acreditava intocável caiu. E, para milhões de venezuelanos, isso já significa mais do que qualquer tratado ou comunicado oficial.

Um começo de ano sem ingenuidade

Este não é um texto de celebração cega, nem de condenação automática. É um texto de equilíbrio possível. De quem entende que o mundo não cabe em slogans.

Discutam-se os meios. Cobrem-se explicações. Vigiem-se os precedentes.

Mas não se perca de vista o essencial: ditaduras não merecem proteção moral, e povos inteiros não podem continuar reféns de um purismo jurídico que nunca os salvou.

2026 começa assim: com menos ingenuidade, mais escuta e a consciência de que, às vezes, a história avança não pelo caminho ideal — mas pelo único que se abriu. 

Uma coisa eu sei: o que é pior do que um ditador? 

É quem o apoia! 


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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