ESPANHA REGULARIZA 500 MIL IMIGRANTES: O QUE MUDA NA PENÍNSULA IBÉRICA ENQUANTO PORTUGAL VAI ÀS URNAS
POR TIAGO HÉLCIAS

Em plena campanha para o segundo turno das presidenciais portuguesas, marcado para 8 de fevereiro de 2026, a Espanha toma uma decisão que ressoa bem além das suas fronteiras: o governo de Pedro Sánchez aprovou, por decreto-lei, uma das maiores regularizações de imigrantes da Europa recente. A medida pode beneficiar até 500 mil pessoas — alguns analistas falam em 800 mil, contando familiares e requerentes de asilo.
O que prevê a regularização espanhola
O decreto permite que imigrantes em situação irregular legalizem a sua permanência no país, desde que cumpram requisitos simples: ter entrado em Espanha até 31 de dezembro de 2025, comprovar cinco meses de residência (através de documentos como registos municipais, contratos de arrendamento ou recibos) e não ter antecedentes criminais graves. Para quem pediu proteção internacional, basta que o pedido tenha sido feito antes do final de 2025.
Quem for aceite recebe autorização de residência e trabalho por um ano, renovável, podendo mais tarde transitar para outros tipos de visto. A medida foi aprovada por via de decreto porque o PSOE, partido de Sánchez, não tem maioria parlamentar — e seria difícil fazer passar uma proposta desta envergadura pelo Congresso, onde a oposição conservadora e a extrema-direita do Vox contestam duramente a iniciativa.
Organizações da sociedade civil, incluindo a Igreja Católica e grupos de defesa dos direitos humanos, saudaram o decreto como um gesto de justiça e dignidade. Do outro lado, o Partido Popular e o Vox acusam o governo de incentivar a migração irregular e de sobrecarregar os serviços públicos.
Por que a Espanha vai na contramão da Europa
Enquanto Bruxelas discute o endurecimento das políticas de asilo — com foco em expulsões mais rápidas e maior controlo nas fronteiras externas —, Madrid escolheu outro caminho. Países como França, Alemanha e Bélgica realizaram regularizações pontuais e limitadas nos últimos anos, mas nada comparável ao que a Espanha propõe agora.
O contexto espanhol ajuda a explicar a decisão: o país enfrenta uma população envelhecida, falta de mão de obra em sectores como agricultura, turismo e serviços, e uma necessidade crescente de contribuintes para sustentar o sistema de segurança social. A imigração, neste cenário, deixa de ser apenas uma questão humanitária para se tornar também uma resposta económica.
E Portugal? O debate que divide o país
Aqui do outro lado da fronteira, o contraste é evidente. Portugal não avançou com nenhuma regularização extraordinária de larga escala, e o tema da imigração tornou-se um dos pontos mais sensíveis da campanha eleitoral. Entre o primeiro e o segundo turno das presidenciais, o debate público oscila entre quem defende a necessidade de mão de obra e renovação demográfica, e quem alerta para a pressão sobre serviços públicos, habitação e segurança.
Ao contrário da Espanha, onde a memória recente de emigração ainda marca a narrativa política, em Portugal a discussão tende a centrar-se mais nas dificuldades institucionais — a sobrecarga da AIMA, as listas de espera, a falta de habitação acessível — do que numa visão estratégica de integração. A polarização é real, e os candidatos têm abordado o tema com cautela ou, por vezes, com retórica mais dura.
Duas respostas para o mesmo desafio
A Espanha decidiu reconhecer uma realidade: centenas de milhares de pessoas já vivem, trabalham e contribuem para a economia do país, mesmo sem papéis. A regularização é, neste sentido, um gesto pragmático — e politicamente arriscado. Portugal, por enquanto, mantém-se no terreno das dúvidas, das promessas eleitorais e das preocupações legítimas sobre capacidade de resposta.
A grande questão que une Madrid e Lisboa é esta: como é que países europeus, envelhecidos e carentes de mão de obra, vão lidar com os fluxos migratórios nas próximas décadas? A Espanha ensaia uma resposta. Portugal ainda procura a pergunta certa — e isso nota-se nas ruas, nos comícios e nas conversas de café, aqui onde a campanha eleitoral está no seu auge.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
Siga nas redes para continuar a conversa
Comentários