DO FEED ÀS URNAS: COMO MACEIÓ TRANSFORMOU A PRIMEIRA-DAMA EM PROJETO DE PODER
POR TIAGO HÉLCIAS

Eu conheço essa história de perto.
Não por leitura acadêmica, nem por análise distante. Conheço vivendo.
Como muitos sabem, trabalhei em Maceió, atuei como apresentador do Balanço Geral Alagoas, ainda no tempo em que se fazia jornalismo sério e profissional, durante a primeira gestão de João Henrique Caldas, e fui um crítico duro — talvez incômodo demais — do que sempre identifiquei como a gestão do prefeito de rede social. A Maceió que eu denunciava diariamente não era a que aparecia no Instagram oficial da prefeitura. Era a Maceió real: das grotas esquecidas, das periferias invisíveis, da população excluída do enquadramento bonito, do filtro, do vídeo bem editado.
Havia — e ainda há — duas Maceiós.
A do feed.
E a da sobrevivência.
Bater de frente com isso teve custo. Teve consequência. Não seria a primeira — nem a última — vez que o dinheiro, o poder político e os interesses cruzados falariam mais alto do que o jornalismo crítico. Isso já não é novidade na minha trajetória. O roteiro é conhecido.
Por isso mesmo, acompanho há anos, com atenção cirúrgica, os movimentos da família JHC. E quando vi, nas minhas redes, o rebranding da primeira-dama — Marina Candia deixando de ser Candia para se tornar Marina JHC — o radar apitou imediatamente.
Não é coincidência.
Nunca é.

O PODER NÃO SE CONSTRÓI. SE HERDA.
Convenhamos, JHC não surgiu como um acidente político. Ele herdou um trono. Herdou capital eleitoral, sobrenome, estrutura, alianças e proteção. Mais um político fabricado para atender os anseios das oligarquias locais. O marketing político apenas refinou o que a tradição já havia entregue pronto.
Agora, o movimento se repete.
Com outra embalagem.
Com outra narrativa.
Com o mesmo DNA.
A esposa passa a ocupar o espaço simbólico que antecede a disputa. Não se fala em candidatura, mas tudo comunica candidatura. Não se pede voto, mas se constrói reconhecimento. Não se assume o jogo, mas o tabuleiro já está montado.
Quando Marina Candia vira Marina JHC, ela não está apenas assumindo o nome do marido. Está aderindo formalmente a uma dinastia política, colando sua imagem à marca já testada nas urnas. É marketing político de manual — aplicado com precisão milimétrica.
A PRIMEIRA-DAMA COMO EXTENSÃO DO PROJETO
Nada disso é improviso. A atuação social, a presença constante, o discurso doce, a estética cuidadosamente humanizada: tudo cumpre uma função. A primeira-dama deixa de ser figura institucional e passa a ser ativo político em construção.
É o mesmo modelo que se repete em Alagoas — e em boa parte do Nordeste — há décadas: o poder circula dentro de casa. De pai para filho. De marido para esposa. De esposa para marido. De tio para sobrinho. De avô para neto.
Mudam as plataformas.
Mudam os discursos.
Mudam os filtros.
Mas o poder permanece no mesmo endereço.

ALAGOAS COMO LABORATÓRIO DO VELHO PODER COM ROUPA NOVA
Alagoas funciona, historicamente, como um laboratório político. A história política do estado fala por si só. Na terra dos marechais se testam fórmulas que depois se espalham: o coronelismo modernizado, a oligarquia digital, o clientelismo com storytelling emocional.
Sai o palanque.
Entra o Reels.
Sai o comício.
Entra o engajamento.
Mas o princípio é idêntico: construir uma imagem que não dialoga com a realidade concreta da maioria, enquanto se prepara a próxima peça do tabuleiro eleitoral.
Foi isso que critiquei na primeira gestão de JHC. É isso que volto a observar agora. A Maceió do Instagram segue vendável. A Maceió real continua esperando.
O PROBLEMA NÃO É O NOME. É O MÉTODO.
Que fique claro: o problema não é Marina. Ela é produto de um sistema que normalizou a política como herança familiar. Um sistema que trata o eleitor como público-alvo, não como sujeito político.
O problema é quando a democracia vira sucessão planejada, quando o debate é substituído por branding, quando o poder troca apenas de CPF — mas nunca de lógica.
E é exatamente por isso que essa mudança aparentemente banal de nome não pode passar despercebida. Porque, em política, nada comunica mais do que o que se tenta naturalizar.
Em Alagoas, o poder raramente muda.
Ele apenas se reapresenta.
Com outro rosto.
Com outro sobrenome.
Com o mesmo projeto.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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