“A Mentira da Soberania Sustentou a Tirania” Em entrevista, Maria Corina Machado fala sobre repressão, crime organizado e o colapso deliberado da Venezuela
POR FOX NEWS / EDIÇÃO: TIAGO HÉLCIAS

A crise venezuelana deixou há muito de ser um debate ideológico para se consolidar como um caso emblemático de colapso institucional, captura do Estado e violação sistemática de direitos humanos. Relatórios internacionais, números oficiais e denúncias reiteradas de organismos multilaterais desmontaram, peça por peça, a narrativa de normalidade sustentada pelo regime de Nicolás Maduro.
Em entrevista concedida à Fox News, Maria Corina Machado — principal liderança da oposição democrática venezuelana, ganhadora do prêmio Nobel da paz — foi direta ao enfrentar uma das teses mais recorrentes usadas para relativizar a tragédia do país: a de que a Venezuela ainda gozaria de soberania plena e instituições funcionais.
O que segue é uma transcrição editorial, dos principais trechos, organizada a partir das declarações públicas feitas por Maria Corina Machado à Fox News, respeitando o conteúdo, o contexto e o posicionamento da entrevistada.

ENTREVISTA
Fox News — Muito se fala sobre uma possível intervenção externa na Venezuela. A senhora acredita que o país caminha para esse cenário?
Maria Corina Machado — A Venezuela já foi invadida. Não estamos falando de uma invasão convencional, com tropas estrangeiras atravessando fronteiras, mas de algo muito mais profundo. O país foi invadido pela corrupção, pelo crime organizado e pela destruição deliberada das instituições. Quando um Estado perde sua autonomia interna, sua Constituição e sua capacidade de proteger os cidadãos, ele já não é soberano de fato.
Fox News — Quando a senhora fala em invasão, está se referindo a influências externas ou à crise interna?
Maria Corina Machado — A ambos. Existe uma ocupação interna do Estado por um regime que governa contra o seu próprio povo e, ao mesmo tempo, uma dependência externa de alianças com governos autoritários e redes ilegais. A soberania venezuelana foi negociada em troca da permanência no poder.
Fox News — O regime afirma manter controle institucional e apoio das Forças Armadas. Isso corresponde à realidade?
Maria Corina Machado — Não. O que existe é coerção. As Forças Armadas foram instrumentalizadas, purgadas e submetidas a um sistema de medo. Onde não há institucionalidade, cria-se repressão. Onde não há legitimidade, impõe-se silêncio. O apoio real das forças armadas à população venezuelana foi substituído por estruturas paralelas de controle.
Fox News — Há denúncias de que o regime utiliza grupos criminosos como parte de sua estratégia. A senhora confirma isso?
Maria Corina Machado — Sim. O regime de Maduro utiliza organizações criminosas como ferramentas políticas e de repressão. Grupos como o Tren de Aragua deixaram de ser apenas um problema de segurança interna e se tornaram um fator de desestabilização regional. Isso não é apenas uma tragédia venezuelana — é uma ameaça continental.
Fox News — O governo Maduro acusa os Estados Unidos de interferência e de tentar estrangular economicamente o país. Como a senhora responde a isso?
Maria Corina Machado — Essa é uma narrativa construída para esconder responsabilidades. A destruição da economia venezuelana não foi causada por sanções, mas por décadas de má gestão, corrupção, expropriações arbitrárias e repressão. O povo venezuelano empobreceu enquanto uma elite ligada ao poder enriqueceu.
Fox News — Qual é hoje a principal demanda do povo venezuelano?
Maria Corina Machado — Liberdade. Justiça. Eleições verdadeiras. O povo quer viver sem medo, trabalhar com dignidade e decidir seu próprio futuro. Isso não é radicalismo. Isso é o básico de qualquer democracia.
Fox News — A senhora acredita em uma transição democrática?
Maria Corina Machado — Acredito porque o povo venezuelano não desistiu. Mas essa transição exige verdade, responsabilização e apoio internacional firme à democracia, não à manutenção de regimes que violam sistematicamente os direitos humanos.
A MINHA VISÃO
Há momentos em que o jornalismo precisa parar de fingir neutralidade para não trair a própria consciência. Este é um deles.
Quando Maria Corina Machado afirma que a Venezuela “já foi invadida”, ela não está lançando uma frase de efeito. Está descrevendo, com precisão brutal, o que acontece quando um Estado é sequestrado por um projeto de poder que transforma instituições em instrumentos de medo, a lei em farsa e o povo em refém. A invasão não veio de fora. Veio de dentro. E foi metódica.
Defender a soberania venezuelana hoje, ignorando esse processo, é defender uma abstração morta. Não existe soberania onde não há eleições livres. Não existe soberania onde jornalistas são silenciados, opositores são presos ou mortos e o crime organizado passa a integrar a engrenagem do Estado. O que existe é dominação. E dominação não merece respeito — merece ser enfrentada.
O mais perverso dessa tragédia é a tentativa de inverter papéis: transformar vítimas em culpados, denunciantes em “agentes externos” e carrascos em guardiões da legalidade. Essa operação discursiva só funciona para quem olha de longe, com conforto, e não precisa escolher entre exílio, fome ou silêncio.
A Venezuela não é um debate acadêmico. É um país dilacerado. E insistir em tratar essa realidade como um jogo geopolítico, protegido por um manto seletivo de soberania, é virar o rosto para a dor de milhões de pessoas reais.
Há horas em que a história cobra posicionamento.
E há silêncios que já não são prudência — são cumplicidade.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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