A CAMINHADA, O CERCO E O DESPERTAR FORÇADO: SERÁ QUE O BRASIL ACORDOU?

POR TIAGO HÉLCIAS 

A caminhada liderada por Nikolas Ferreira nasceu fora do enquadramento confortável da política institucional. Começou no asfalto, sem palanque, sem aparato e, principalmente, sem cobertura. Nos primeiros dias, a estratégia foi o silêncio. Ignorar para ver se morria sozinha. Nenhuma manchete, nenhum editorial preocupado, nenhuma análise alarmada sobre democracia. Para o sistema, aquilo simplesmente não existia.

Mas existia. Existia no desgaste físico, na exposição real ao risco e na decisão de seguir adiante mesmo sem aplauso. E, no Brasil de hoje, isso não é detalhe.

O terceiro dia e a quebra do script

O ponto de inflexão veio no terceiro dia. As redes sociais assumiram o papel que a grande imprensa se recusava a cumprir. Vídeos simples, diretos, sem maquiagem, começaram a circular com força. O cansaço era visível, a persistência também. Não foi o número de pessoas que mudou o jogo, foi o simbolismo. A ideia de alguém caminhando contra o fluxo, sem autorização, sem chancela.

A partir dali, a caminhada deixou de ser um gesto isolado e passou a ser um fato político. E fato político, quando ganha tração popular, cria constrangimento para quem apostou no silêncio.

Os aliados de última hora

Com a repercussão consolidada, vieram os apoios de conveniência. Políticos, influenciadores e personagens públicos que até então observavam de longe surgiram subitamente como entusiastas do movimento. É o velho padrão da política brasileira. Primeiro o cálculo, depois a coragem. Ou, mais precisamente, a encenação dela.


vídeos amplamente difundidos, vendidos como prova de alinhamento com o povo, sintetiza esse comportamento. Bem editado, emocionalmente eficiente, mas oportunista. A tentativa de reescrever a cronologia é evidente. Quem iniciou a caminhada assumiu o risco, o isolamento e o desgaste. O restante apareceu quando o sucesso já estava garantido pelo algoritmo.

A imprensa militante e o silêncio constrangido

A grande mídia não escolheu cobrir a caminhada. Foi obrigada. A adesão popular, medida em engajamento, alcance e repercussão, tornou o silêncio insustentável. A pauta entrou atrasada, enviesada, muitas vezes tentando minimizar o gesto ou deslocar o foco para detalhes laterais.

Não foi jornalismo vigilante. Foi reação defensiva. Quando a realidade escapa do controle editorial, resta correr atrás e tentar enquadrá-la antes que cresça ainda mais.

O Judiciário como antagonista

No pano de fundo, o Judiciário voltou a ocupar o centro da cena política. Decisões atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes, interpretadas por apoiadores como tentativas de restringir a liberdade de expressão, funcionaram como combustível. Especialmente a medida que impediu o acesso ao local onde Jair Bolsonaro está preso, lida como um esforço explícito para conter a manifestação democrática.

Aqui está uma das entrelinhas mais relevantes. Toda vez que o Estado tenta controlar simbolismos políticos, acaba produzindo o efeito contrário. A restrição vira narrativa. O cerco vira combustível. O Judiciário, ao abandonar a posição de árbitro discreto, assume o papel de personagem central da polarização.


O que realmente está em jogo

Se havia muita ou pouca gente na estrada é o que menos importa. O essencial está no que a caminhada representa. Ela expôs a fragilidade de um sistema que depende do controle da narrativa, da mediação constante e da filtragem do discurso. Mostrou que ainda existe mobilização fora do script, fora do consenso fabricado, fora da autorização institucional.

O slogan “o Brasil acordou” circula com força. Mas a pergunta correta é outra. O Brasil acorda mesmo ou apenas reage por impulso antes de voltar ao torpor? A história recente sugere despertares breves, seguidos de longos períodos de resignação.

O olhar de fora: Portugal e a Europa observam

Daqui de Portugal, a repercussão foi nítida. A caminhada atravessou o Atlântico sobretudo pelas redes sociais e pelas comunidades brasileiras residentes na Europa. Em Lisboa, no Porto e em outras cidades, o tema apareceu em conversas, análises informais e leituras políticas que fogem da caricatura brasileira. O que chamou atenção não foi apenas o ato em si, mas o que ele revela sobre o estado da democracia no Brasil.

Para o olhar europeu, acostumado a conflitos institucionais mais contidos, o episódio soa como sintoma de uma crise prolongada. Um país em permanente tensão entre sociedade e instituições, com um Judiciário cada vez mais protagonista e uma imprensa cada vez menos plural. O “acorda Brasil”, visto daqui, soa menos como slogan e mais como um pedido de socorro democrático.

E depois da estrada?

A caminhada não derruba decisões judiciais, não muda governos e não resolve o impasse institucional brasileiro. Mas deixa marcas. Reforça a polarização, amplia a desconfiança nas instituições e alimenta a percepção de que o país vive sob uma tutela cada vez mais explícita de uma combinação entre Judiciário, política tradicional e mídia militante.

Se isso terá consequências duradouras, ainda é cedo para afirmar. O que já se pode dizer é que ignorar movimentos assim não os faz desaparecer. Tentar sufocá-los tende a fortalecê-los. A estrada falou. O Brasil ouviu por alguns dias. Resta saber se vai seguir acordado ou se, mais uma vez, vai aceitar dormir sob a mesma lógica de poder, agora com toga, microfone e editorial.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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