FUNDO PARTIDÁRIO BILIONÁRIO, CIÊNCIA NA PENÚRIA: O BRASIL QUE FINANCIA O PODER E ABANDONA O FUTURO
POR TIAGO HÉLCIAS

Se você leu o que escrevi aqui sobre a Polilaminina e como o Brasil deixou escorregar entre os dedos a patente de um medicamento desenvolvido dentro das nossas próprias universidades, por falta de recursos para pagar uma taxa, talvez você tenha ficado com aquela sensação incômoda de que aquilo não era um acidente isolado. Não era e definitivamente, não é.
O que aconteceu com a polilaminina é sintoma. E quando eu fui olhar o Orçamento da União para entender o diagnóstico, o que encontrei foi ainda mais difícil de engolir: enquanto a ciência brasileira perde patentes por falta de dinheiro, o sistema político encontra, com admirável criatividade, bilhões para financiar a si mesmo.
Deixa eu te mostrar os números. Porque eles dizem, sozinhos, o Brasil que estamos escolhendo ser.
A Conta que Ninguém Gosta de Fazer
Em 2025, o Fundo Partidário distribuiu mais de R$ 1,1 bilhão às legendas nacionais. Dinheiro público. Para pagar salário de funcionário de partido, aluguel de sede, logística de estrutura política. Para manter funcionando uma máquina que existe, antes de tudo, para perpetuar a si mesma.
Para 2026, e aqui a coisa fica interessante, porque 2026 é ano de eleição presidencial, o Congresso já discutiu propostas para o fundão eleitoral que ultrapassam R$ 4,9 bilhões.
Aprovadas em comissão parlamentar, com aquela naturalidade que, no Brasil, a gente já aprendeu a reconhecer: a naturalidade de quem sabe que ninguém vai fazer muito barulho.
Eu olho para esse número e penso: R$ 4,9 bilhões. Para campanha. No mesmo país onde a principal agência de fomento à pesquisa científica opera com menos de R$ 2 bilhões.
Alguém precisava dizer isso em voz alta.
Uma História que Não Começa Hoje
Eu poderia culpar o governo atual e encerrar o assunto. Meus “colegas” da imprensa militante esquerdistas iriam me esculhambar até minha última geração. Não que isso me incomode, confesso que me divirto muito quando a “thurma” tenta desqualificar o que escrevo com argumentos tendenciosos ao governo de plantão. É a prova que o texto surtiu o efeito esperado.
Pra mim seria fácil, seria cômodo e seria até desonesto.
A verdade é que essa lógica atravessa governos, partidos e décadas. O fundão eleitoral não foi inventado pelo PT, nem por Bolsonaro, nem por Temer. Ele é filho de um sistema político que, independente de quem está no poder, encontra uma forma de se autofinanciar com generosidade.
Mas é preciso contextualizar: o PT é o partido com mais tempo de governo federal na história recente do Brasil. Lula I, Lula II, Dilma I, Dilma II e agora Lula III. São mais de quinze anos no comando do Executivo federal. E ao longo desse período, o fundo partidário cresceu, o fundão eleitoral ganhou corpo, e a retórica de que o Brasil precisa investir em ciência e tecnologia nunca se transformou, de fato, em prioridade orçamentária consistente.
Quando Bolsonaro governou, a história foi parecida. A base aliada foi alimentada, os fundos foram usados como moeda de negociação política, e a ciência seguiu com orçamento de segundo escalão, acrescida, naquele caso, de um negacionismo explícito que tornou tudo ainda pior.
O padrão se repete. Muda o discurso, fica a lógica.
O Que a Ciência Brasileira Está Tentando Dizer
O CNPq, para quem não conhece, é a principal agência de fomento à pesquisa científica do país. Chegou a 2025 com um orçamento que mal sustenta o que já existe, quanto mais expande o que precisa crescer. Bolsas defasadas, infraestrutura envelhecendo, pesquisadores olhando para ofertas no exterior com uma mistura de culpa e pragmatismo.
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e a Academia Brasileira de Ciências já disseram publicamente: o orçamento de 2026 representa redução real. Não estagnação, redução. Num cenário de inflação, cortar em termos reais é mais grave do que os números nominais deixam parecer.
E enquanto isso, o fundão cresce.
2026: O Ano em que Tudo Fica Mais Claro
Eu não acredito em coincidências quando se trata de orçamento público em ano eleitoral.
O crescimento dos fundos partidários e eleitorais às vésperas de 2026 não é surpresa, é funcionamento normal de um sistema político que aprendeu a usar o Estado como suporte logístico para a própria sobrevivência. Todo partido que chega ao poder faz isso, em maior ou menor grau. O PT não é exceção, apenas institucionalizou. A direita também não foi.
O problema é que, desta vez, o contraste está escancarado demais para fingir que não existe. O país entra no ano eleitoral com mais dinheiro para financiar campanha e menos para financiar o futuro. E quem paga essa conta não é o político, é o pesquisador que vai embora, o laboratório que fecha, a inovação que não acontece.
Vejo governos que, independente de quem estava no poder, mantiveram o compromisso com ciência e inovação como política de Estado, não de governo, não de partido, não de discurso de posse.
O Brasil tem capacidade científica real. Tem universidades, tem pesquisadores, tem histórico de contribuição relevante em áreas como agricultura tropical, saúde pública, energia. O problema não é falta de talento. É falta de escolha política consistente.
E escolha política, no fim, é o que um orçamento revela quando para de ser documento técnico e vira declaração de intenções.
A Pergunta que Fica para 2026
Não estou dizendo que financiamento político é errado por definição. Democracias custam dinheiro, e partidos precisam de recursos para funcionar. Esse debate é legítimo.
O que estou dizendo é mais simples, e mais incômodo: quando a proporção entre o que se investe em política e o que se investe em ciência chega a esse ponto, algo está errado na hierarquia de prioridades de um país que diz querer se desenvolver.
Em 2026, o Brasil vai às urnas. E cada eleitor vai ter, mais uma vez, a oportunidade de perguntar, não apenas quem vai governar, mas para quem esse governo vai trabalhar. Se para a máquina que precisa ser alimentada para continuar existindo. Ou para o país que precisa ser construído para ter futuro.
O dinheiro já escolheu. A pergunta é se a gente vai junto.
Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.
Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.
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