Trump perde o Congresso: a derrota nas eleições de meio de mandato e o recado das urnas americanas

Por Tiago Hélcias

Democratas conquistam Câmara e Senado, avançam em redutos republicanos e impõem um novo cenário político aos Estados Unidos. Economia, guerra com o Irã e desgaste do governo ajudam a explicar o resultado.

Donald Trump não estava na cédula eleitoral. Mas estava, politicamente, em praticamente todas as disputas. E o resultado das eleições de meio de mandato, realizadas nesta terça-feira (3), trouxe um recado que dificilmente poderá ser ignorado pela Casa Branca: uma parcela expressiva dos americanos decidiu mudar os rumos do Congresso.

Os democratas conquistaram a maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, encerrando o controle republicano sobre o Legislativo. A mudança acontece apenas dois anos depois da vitória que levou Trump de volta à Presidência dos Estados Unidos.

É uma derrota que vai além da perda de cadeiras. Ela modifica a relação de forças em Washington, compromete parte da agenda do presidente e abre uma disputa sobre os rumos do Partido Republicano.

E há um detalhe que considero particularmente importante: a eleição mostrou que o eleitor pode apoiar um projeto político numa disputa presidencial e, dois anos depois, impor limites ao mesmo projeto. Isso faz parte do funcionamento de uma democracia.

Os números da derrota republicana

Os resultados divulgados na manhã de quarta-feira (4) confirmaram a maioria democrata nas duas casas do Congresso.

No Senado, os democratas e os independentes que se alinham ao partido já somavam 54 cadeiras, contra 44 republicanas, enquanto duas disputas permaneciam indefinidas no levantamento consultado.

Na Câmara dos Representantes, os democratas haviam conquistado 228 cadeiras, superando as 218 necessárias para formar maioria. Os republicanos contabilizavam 139 vitórias, com dezenas de distritos ainda em apuração.

A dimensão da mudança aparece principalmente no mapa eleitoral.

No Texas, um dos principais redutos conservadores dos Estados Unidos, os democratas conquistaram uma cadeira no Senado e derrotaram o governador republicano Greg Abbott. No Kansas, o partido elegeu seu primeiro senador desde a década de 1930. Na Carolina do Sul, tradicional território republicano, também houve uma vitória democrata para o Senado.

Esses resultados ajudam a compreender a amplitude do movimento eleitoral. Não foi uma mudança restrita aos estados tradicionalmente democratas.

O que levou os americanos a mudar de direção?

As eleições de meio de mandato costumam funcionar como uma avaliação do presidente em exercício. O partido que ocupa a Casa Branca frequentemente enfrenta dificuldades, sobretudo quando há insatisfação econômica.

Desta vez, três questões ganharam destaque: o custo de vida, a guerra com o Irã e a percepção de que o governo precisava de maior fiscalização.

Pesquisas de boca de urna citadas pela Reuters indicaram que metade dos eleitores entrevistados enxergava a eleição como uma oportunidade de manifestar oposição ao presidente. Outros 70% defenderam que o Congresso exercesse maior controle sobre a Casa Branca.

A economia teve papel decisivo nessa discussão.

Embora Trump tenha defendido os resultados de sua política econômica durante a campanha, os democratas exploraram o aumento dos custos para as famílias, os efeitos das tarifas comerciais e as consequências financeiras do conflito com o Irã.

O Partido Republicano procurou concentrar o debate em questões culturais e ideológicas. Entretanto, as pesquisas apontaram maior preocupação dos eleitores com despesas cotidianas e o futuro econômico.

A diferença entre o discurso político e a percepção do cidadão sobre sua própria realidade foi um dos elementos centrais dessa eleição.

Trump perdeu. Mas o trumpismo acabou?

Aqui começa uma discussão que considero muito mais interessante do que a simples comemoração de uma vitória ou a lamentação de uma derrota.

Trump continua presidente. Permanece como uma liderança de enorme influência dentro do Partido Republicano e ainda dispõe de instrumentos importantes para negociar e exercer o poder.

O resultado eleitoral, entretanto, revela os limites dessa influência.

O próprio presidente procurou se distanciar das derrotas ao afirmar, nas redes sociais, que não estava na cédula e que, caso estivesse, teria vencido por ampla margem.

Mas existe uma contradição política nessa explicação.

Durante a campanha, Trump participou de comícios, apoiou candidatos e pediu aos eleitores que votassem como se ele próprio estivesse concorrendo. Quando um presidente transforma uma eleição legislativa em um teste de sua liderança, naturalmente passa a dividir a responsabilidade política pelo resultado.

Isso não significa que todos os candidatos republicanos tenham perdido exclusivamente por sua associação com Trump. Questões locais, perfis individuais e problemas econômicos também influenciaram as disputas.

O resultado, porém, coloca uma pergunta diante dos republicanos: até que ponto a força eleitoral pessoal de Trump consegue ser transferida para outros candidatos?

É uma discussão que o partido terá de enfrentar.

Congresso democrata: o que muda para Trump?

A partir de janeiro de 2027, quando os novos parlamentares assumirem seus mandatos, Trump terá de governar com as duas casas do Congresso sob controle democrata.

Na prática, isso representa dificuldades adicionais para aprovar propostas legislativas, negociar o orçamento federal e avançar em determinadas nomeações.

O Senado poderá bloquear indicações presidenciais, inclusive eventuais nomeações para a Suprema Corte. Na Câmara, os democratas terão instrumentos para promover audiências, solicitar documentos e abrir investigações sobre a administração federal.

Isso não significa que Trump perderá automaticamente sua capacidade de governar.

O presidente continuará dispondo do poder de veto, de atribuições executivas e da possibilidade de negociar acordos com parlamentares da oposição.

O problema será encontrar pontos de convergência num ambiente político marcado pela polarização.

Também existe o risco de uma sucessão de impasses legislativos, especialmente em matérias econômicas e orçamentárias.

A alternância do controle parlamentar faz parte do sistema americano. O desafio será transformar esse novo equilíbrio político em decisões efetivas.

Minha análise: o eleitor não entrega procuração permanente a ninguém

Ao observar o resultado, vejo uma questão que merece reflexão, inclusive no Brasil.

A vitória presidencial de 2024 representou uma escolha legítima dos americanos. A vitória democrata de 2026 também.

Uma eleição não anula a legitimidade da outra.

O eleitor pode concordar com determinadas propostas conservadoras, apoiar uma política de imigração mais rígida ou defender mudanças econômicas e, ainda assim, discordar de decisões tomadas pelo governo que ajudou a eleger.

Essa distinção é essencial.

Tenho defendido que nenhuma liderança política deveria ser confundida com a totalidade de um campo ideológico. O conservadorismo americano é maior do que Trump, assim como o Partido Democrata reúne correntes que ultrapassam suas lideranças mais conhecidas.

O resultado também oferece uma advertência aos democratas.

Conquistar a maioria parlamentar não significa receber um cheque em branco. O eleitor que cobra limites ao Executivo também poderá exigir responsabilidade e resultados concretos do Legislativo.

A oposição terá condições de fiscalizar a administração, mas precisará decidir como equilibrar investigações, negociações e propostas voltadas às dificuldades econômicas da população.

A questão que surge é simples: os democratas conseguirão transformar a vitória eleitoral em respostas para os problemas que mobilizaram seus eleitores?

E o que esperar das eleições presidenciais de 2028?

O resultado de 2026 certamente terá consequências sobre as articulações políticas para 2028.

Impedido constitucionalmente de disputar um terceiro mandato, Trump terá de acompanhar o debate sobre sua sucessão dentro do Partido Republicano.

Nomes ligados ao governo, incluindo o vice-presidente JD Vance, estarão inseridos nessa discussão, embora os resultados das próximas disputas internas ainda dependam das decisões dos partidos e dos próprios candidatos.

Entre os democratas, o controle do Congresso também poderá fortalecer lideranças nacionais e estaduais interessadas na próxima eleição presidencial.

Há, porém, uma diferença fundamental entre vencer uma eleição parlamentar e conquistar a Presidência.

As coalizões eleitorais, os candidatos e as circunstâncias políticas podem mudar profundamente em dois anos.

Por isso, transformar o resultado das eleições de meio de mandato numa previsão definitiva para 2028 seria precipitado.

A lição política que fica

A derrota republicana de 2026 evidencia como o equilíbrio de forças pode mudar rapidamente nos Estados Unidos.

Em 2024, Trump conquistou a Presidência. Dois anos depois, os democratas conseguiram assumir o controle do Congresso. São decisões diferentes, tomadas em momentos diferentes, por um eleitorado que continua avaliando o desempenho de seus representantes.

O presidente terá agora de lidar com uma oposição fortalecida. Os democratas, por sua vez, serão cobrados pela maneira como utilizarão o poder parlamentar conquistado.

E é aqui que faço minha reflexão final.

Democracia pressupõe a possibilidade de apoiar, discordar, fiscalizar e substituir representantes pelo voto. Nenhuma vitória torna uma liderança politicamente intocável. Nenhuma derrota elimina o direito de continuar defendendo suas ideias.

Trump perdeu uma batalha política importante. Os democratas conquistaram o Congresso. Mas a decisão mais relevante pertence ao eleitor americano, que modificou a composição do poder sem precisar mudar o presidente.

A partir de janeiro, Washington terá de conviver com essa nova realidade.

E o verdadeiro teste será verificar como governo e oposição responderão ao recado das urnas.

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