O MODELO ECONÔMICO QUE A EUROPA ESTÁ ABANDONANDO E O QUE O BRASIL ESTÁ ABRAÇANDO, AINDA MAIS

POR TIAGO HÉLCIAS 

Vivo em Portugal há alguns anos. Sou jornalista brasileiro, e esse endereço europeu mudou a forma como enxergo o meu próprio país. Não porque a Europa seja perfeita, longe disso, mas porque daqui a distância ajuda a enxergar com mais clareza o que de lá, dentro do Brasil, o dia a dia não deixa ver.

E foi daqui, acompanhando o noticiário europeu de perto, que uma frase do chefe de governo da Alemanha, Friedrich Merz, me parou. “O Estado de bem-estar social na forma em que o temos hoje não pode mais ser financiado com o que somos capazes de produzir economicamente” , disse ele publicamente em agosto do ano passado. E então, em vez de fingir que o problema não existe, o governo alemão começou a fazer algo que poucos países têm coragem de fazer: sentar à mesa e repensar, de verdade, quem é responsável por quê.

Trouxe esse debate para cá porque ele fala diretamente ao Brasil, mesmo que o Brasil ainda não saiba disso.

A Alemanha mudando de postura

A Alemanha está no meio de uma mudança profunda na forma como cuida dos seus cidadãos. O governo está, ao mesmo tempo, reduzindo o que paga diretamente às pessoas e criando vantagens fiscais, ou seja, redução de impostos, para que empresas e os próprios trabalhadores passem a assumir uma parte maior dessa responsabilidade.

O exemplo mais claro é a aposentadoria. O governo quer migrar do modelo em que os trabalhadores de hoje pagam a aposentadoria de quem já se aposentou, para um sistema em que cada pessoa vai acumulando a sua própria reserva ao longo da vida.  Para estimular isso, criou uma conta de investimento para a aposentadoria com incentivos do governo, inspirada em modelos que já funcionam nos Estados Unidos e no Reino Unido, dando ao trabalhador mais liberdade para escolher onde aplicar o seu dinheiro. 

Na prática: o Estado deixa de ser o único responsável pela sua velhice. Você, sua empresa e o mercado passam a dividir esse peso. O governo ainda contribui, mas não carrega mais o fardo sozinho.

No campo dos auxílios para quem está desempregado, a mudança também foi grande. Em outubro do ano passado, o governo alemão extinguiu o chamado “rendimento cidadão”, um benefício mensal para quem está sem trabalho, e criou no lugar um sistema mais rígido, com regras mais claras e punições progressivas para quem recusar ofertas de emprego. 

Tem gente que chama isso de cruel. Tem gente que chama de necessário. O debate é real e não vou fingir que a reforma alemã é perfeita ou que não tem custos humanos sérios. Organizações de direitos humanos alertaram que os cortes podem atingir quem mais precisa, e que o debate financeiro não pode atropelar a vida das pessoas mais vulneráveis. 

Mas o ponto central aqui não é defender nem atacar o que a Alemanha está fazendo. É entender o que está por trás dessa decisão e o que ela nos diz sobre o mundo.

A pergunta que ninguém quer fazer em voz alta

Existe uma ideia que atravessa quase todos os governos, e o Brasil abraçou essa ideia com gosto, de que o Estado deve resolver tudo. Saúde, educação, moradia, renda, emprego, alimentação. Qualquer questionamento vira acusação: você é contra os pobres. Você quer deixar as pessoas desamparadas.

O problema é que essa ideia, por mais bonita que seja no discurso, não paga as contas no fim do mês.

Vejo isso de Portugal com uma clareza que me assusta. A Europa construiu ao longo de décadas alguns dos sistemas de proteção social mais robustos do mundo. E mesmo aqui, em países como Alemanha, França e Portugal, o debate sobre a sustentabilidade desses sistemas é permanente, honesto e, muitas vezes, doloroso. Ninguém finge que o dinheiro é infinito. Ninguém trata o orçamento público como fonte inesgotável de promessas eleitorais.

A Alemanha, um dos países mais ricos e organizados do mundo, chegou ao ponto em que o seu próprio chefe de governo precisou ir a público dizer que a conta não fecha mais. O gasto com programas sociais bateu recorde em 2024, chegando a 47 bilhões de euros, e segue crescendo.  Isso numa economia que encolheu dois anos seguidos, algo que não acontecia desde o começo dos anos 2000.

A resposta do governo alemão não foi ideológica. Foi pragmática, como quem olha para o extrato bancário e decide que precisa mudar os hábitos. O ministro das Finanças deixou claro: nem toda crise se resolve com mais gasto público. “Quero criar um sistema em que trabalhar valha a pena”, disse ele, propondo que empresas e trabalhadores dividam os custos da previdência, aliviando o peso que hoje cai quase todo nas costas do governo.

Isso é o que eu chamo de gestão pública adulta. Difícil, impopular, mas adulta.

E o Brasil? O Brasil vai na direção oposta

Quando olho para o Brasil daqui de Portugal, com o afeto de quem nasceu lá e a lucidez de quem vive fora há anos, o que eu vejo me preocupa.

Enquanto a Alemanha discute como tornar o seu Estado mais sustentável, o governo Lula caminha com passos firmes na direção contrária. O orçamento federal cresce, o número de programas de transferência de renda se expande, a máquina pública engorda, e qualquer conversa sobre revisão de gastos sociais é varrida para debaixo do tapete como se fosse um xingamento. O Bolsa Família, que tem um mérito histórico inegável no combate à miséria, foi transformado não numa porta de saída da dependência, mas num piso permanente, confortável para quem recebe o voto e conveniente para quem o dá.

Não sou ingênuo sobre as diferenças. O Brasil tem feridas sociais que a Alemanha não tem. A comparação não é uma equação direta. Mas existe uma diferença enorme, e importante, entre usar o dinheiro público para libertar pessoas da pobreza e usá-lo para manter essas mesmas pessoas sempre de mãos dadas com o governo.

Num ano eleitoral, essa diferença fica escancarada. O governo federal acelera anúncios de benefícios, amplia coberturas, cria novos programas, não porque o caixa permite, mas porque as urnas recompensam. O horizonte de planejamento não é o Brasil de 2035. É outubro de 2026.

E quem paga essa conta? O próprio povo, através de uma dívida pública que cresce sem parar e de uma inflação que corrói exatamente o poder de compra daquela dona de casa que vai à feira duas vezes por semana e percebe que o quilo do tomate subiu de novo.

O que a Europa nos ensina e o que o Brasil ainda recusa aprender

Daqui de Portugal, acompanho de perto como os europeus lidam com essa equação. Não com perfeição, Portugal tem os seus próprios problemas sérios, mas com uma maturidade que o debate brasileiro ainda não alcançou. Aqui se discute abertamente o que o Estado pode e o que não pode bancar. Aqui a palavra “reforma” não é automaticamente um palavrão.

Seria desonesto da minha parte dizer que o Brasil deveria copiar o modelo alemão tal qual. Um país que ainda tem dezenas de milhões de pessoas vivendo no limite não pode simplesmente importar as soluções de quem foi rico por décadas. Mas o ensinamento fundamental é universal: nenhum governo consegue ser responsável por tudo, para sempre. O dinheiro público tem limite. E quando ele acaba ou quando a dívida se torna impagável, quem sofre primeiro não é o grande empresário. É a dona de casa da feira. É o aposentado que depende do INSS. É o trabalhador informal que não tem para onde correr.

O próprio Merz disse ao parlamento alemão: 

“As pessoas que trabalham precisam sentir que seus impostos e contribuições estão sendo administrados com cuidado. Ao mesmo tempo, quem precisa do Estado não pode ser abandonado.” 

Essa frase cabe no Brasil como uma luva. Cuide de quem precisa, de verdade, mas faça isso de forma que o sistema não quebre amanhã.

O que não cabe mais, em nenhum lugar do mundo, é a velha ilusão de que o Estado pode ser o pai, a mãe e o padeiro de todos ao mesmo tempo. A Alemanha, com toda a sua riqueza, chegou a essa conclusão na marra.

O Brasil ainda prefere descobrir isso da maneira mais difícil. E eu, daqui das terras lusitanas, sigo assistindo com preocupação, com amor pelo meu país, e com um fio de esperança de que um dia a gente aprende antes de quebrar.


Tiago Hélcias é jornalista com quase três décadas de vivência no front da notícia — do calor das ruas aos bastidores da política. Atua como apresentador, redator e produtor de conteúdo em rádio, TV e plataformas digitais. É pós-graduado em Marketing Político, especialista em Comunicação Assertiva e mestrando em Comunicação Digital em Portugal.

Aqui no blog, escreve com liberdade, opinião e um compromisso claro: provocar o leitor a pensar fora da caixa.

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